Porque é tudo a história de um rapaz sem talentos vivendo na Remota Vila do Outro Lado do mundo. E amanhece o primeiro dia; o rapaz, por sua tolice e inocência, fere com sua lança o cavalo branco refulgente... E a partir daí está irreversívelmente manchado de vermelho menstrual. Tateia o cavalo em vão buscando o ferimento, apenas pra descobrí-lo em si mesmo. O céu se tinge de cinza. A Remota Vila não mais pode acolhê-lo, pois um mal sem nome se instalou na Terra e agora há apenas uma jornada pela redenção.
Eu sofro; todos sofremos. Essa equação pode ou não ser verdadeira, mas pros propósitos desta história ela é. Alguma coisa está faltando, um buraco foi aberto no céu, e através dele vaza pra fora todo o liquor da vida, precioso elixir misturado às cinzas da terra e a lama do pântano. Atolado na bosta vomitada pelo cálice de latarina! Só tem o rapaz os restos de uma espada quebrada em mãos e a fantasmagórica Terra Pura a ser redescoberta; Outrora foste. Nunca mais.
Remedy lane. A estrada serpenteia e se desdobra pra fora de suas próprias entranhas, conversando com o rapaz por signos crípticos. Placas de jornada apontando umas pras outras, 23 augúrios no crepúsculo, 47 na meia noite, 23 novamente no amanhecer. Um ferreiro-viajante emerge das brumas e penetra a narrativa. Na vigésima quinta hora secreta do dia eles se embriagam do vinho das fadas, pés patinando na dança sobre a etérea mesa de chá. Enquanto o delírio se esvai, o ferreiro revela o conteúdo misterioso de sua mochila, erguendo nas mãos dois sólidos discos de aço; em sua junção forja novamente a espada sagrada. Engodo! Queda. Pois uma vez forjada a junção dos dois discos cede ao peso da lâmina, terminando a hora das bruxas, partindo em dois pedaços a sutileza do transe. E o rapaz que não tinha talentos adentra o deserto, árida e escaldante paisagem lisa, portando apenas o disco como escudo e a espada como bússola. Follow the river.
O deserto não é de ninguém. Hordas sem rosto transveram de lado a outro: acorrentados a bezerros dourados cuspindo vapor de suas chaminés, ninfas veladas como andarilhas sufi com pães de queijo de maconha, beduínas sem lar oferecendo pedaços de profecias, histórias de uma cidade em algum lugar. Histórias de uma terra pura que teria sido aqui, e agora, neste deserto, mas não mais é. Histórias de um licor maravilhoso que vazou pelo próprio céu no dia da ferida, que teria imantizado as águas do rio dando-as um misterioso poder de cura. Mas de nada adianta, compressas no ferimento sempre aberto, bebê-las, banhar-se nelas; nenhum sinal de... o que mesmo se buscava? Apenas que cesse a dor, a dor desta rasgo sem nome e sem agente causador.
A memória não é mais como antes. A cada fera sedenta derrotada com golpes de espada, a própria narrativa é secedida de um pedaço. Porfim restam todos em pilha, como um bolo de dejeto de recortes de filme. Até mesmo a dor se torna escorregadia, move-se pelo corpo, ora nas vergonhas, ora na barriga, ora no peito, ora no Nome, ora na testa. Oração. Suicpa. fd0gfj. Danrauss. Palavras mágicas indicam o caminho; flutuam sobre a água como narrativas de luz negra, leves demais pra suportar a densidade das profundezas. O ar falta. O fogo falta. A água falta. Tudo se torna profecia.
Mystery Lane. Árvore de mana. Controle remoto. Vibrador. Lança de odin. Pregada no peito quando tudo esteve de cabeça pra baixo. Pregado pelos pés na teia da vida. Esteve lá invisível por todo este tempo, o eixo da narrativa, cravado trespassando todas as outras pequenas histórias, de antes e de depois do abismo. Mesmo a ferida é só mais um episódio da lança que entra pela base do cu, no defloramento sagrado de quem se fudeu, e sobe arrebentando todos os orgãos e intervalos até emergir sangrenta pelo topo da cuca. O rapaz sem talentos remove a lança, e o ferimento pode finalmente se curar. Ergue-a erétil, tãnãnãnãã! E diz para o céu: eu te penetro sua vadia. Sua vadia sagrada e menstruada. Eu vou te fuder até que não sobre porra nenhuma aqui nesta terra erma. É a mesma história de sempre, só que dessa vez, só me falta o cálice. Dessa vez eu só preciso ir mais alto, mais alto, mais alto, até que eu seja estripado de todas essas camadas constritoras, pele e músculo, carne e osso, nome e sobrenome, papai mamãe e titia, fodendo com o universo mais rápido que sempre. Neste ponto já é tudo profecia. A espada e o escudo são os filhinhos menores da lança e do cálice. Eu sempre fui o cavalo branco, cabala.
O pulo final, MYSTERY LANE, sempre foi este. Entre o real e o profético. Entre o tempolinha e o tempomito. Não dá pra fechar este caminho sendo literal e objetivo. É preciso fechar com a maior das poesias, a poesia pra fuder com todas as poesias de antes. Abstrações: Caminho Tortuoso, Outrora e Outro Lado, A Grande Festa da Vida, o Deserto e As Terras Puras. Sexo com anjos. O segredo está completo e exposto - descompactado - e paradoxalmente, continua a ser segredo.
Em outrora a grama era mais verde, sempre era. Eu não percebia, tolo que era, adolescente perdido por aí. O outro lado é mais aqui do que Aqui, assim é este koan; como é possível? Quando afinal é Outrora e onde afinal é o Outro lado? Outrora não é um momento, nem uma série de momentos. Outrora não é um período do passado localizável, sequer um período móvel que se ajusta à fita rolante do tempo. Outrora é uma síntese, uma síntese temporal, um modo de processar num mesmo pacote aquilo que nos recordamos e alguma Outra Coisa. Poderíamos viver Outrora aqui e agora, assim como vivemos em nossas recordações; outrora não é o oposto do presente, da mesma forma que o Outro Lado é mais aqui do que este lado. O que caracteriza Outrora é uma radiancia, uma percepção das potencialidades em aberto, uma intensidade; a grama mais verde, os verdadeiros momentos da vida. Fazemos esta síntese no passado porque o presente está bloqueado por Agora. Não se enganem: ainda se trata de uma síntese de memórias, o presente existe em nossas cabeças como uma memória de curtíssimo prazo. Se você for ao limite não há diferença entre a memória e a consciência; a consciência é um tipo específico de memória que vai sendo convertida no outro tipo, na recordação. Sintetizamos Outrora com as recordações e não com a memória-presente pois estamos preenchidos por Agora, pelo mesmo, este mesmo que nos persegue e nos tiraniza (nós o fazemos). O Agora e Aqui são as contra-sínteses de Outrora e do Outro Lado - ao menos de sua perspectiva, pois da Outra, o Outro Lado é mais aqui do que Aqui, Outrora é mais presente do que Agora.
O Outro Lado é onde se vive a Grande festa da vida - Outrora é a hora onde a festa está marcada. Aqui e Agora é um saco, sempre pode ser adiado - Outrora é inadiável, é totalmente imediato, arrouba os sentidos e toca o sujeito, demanda dele uma posição. Aqui e Agora estamos só esperando que algo aconteça. Outrora e no Outro lado a própria espera é o acontecimento. Aqui e Agora eu quero só ficar confortável, sentar numa cadeira, fumar um cigarro e ter tempo pra pensar e decidir. Aqui e Agora são a síntese neurótica. Só produzem fantasmas. A fruição da vida é sempre faltosa, sentimos uma sede que nos adoece. Aqui e Agora são produtos de uma expropriação que é espiritual, tanto quanto sócio-histórica: fomos expropriados da libido (Reich), do presente (Zen), do real (Deleuze); tudo falta e tremula fantasmagoricamente porque não nos entregamos; não nos entregamos muito porque se o fizéssemos poderíamos quebrar em pedacinhos como um esquizo. Não nos entregamos porque o ego, eu, em si mesmo é fruto da síntese do Aqui e do Agora, ele é essa pura negação - o que não passa, o que não sou, isto é o ego. O real é pura positividade, pura afirmação - afirmação de dor, de sangue, de prazer, de destruição, de emoção, o que for - enquanto que a função mesma do ego é negar, não, não é isso que eu fantasiei.
Por isso vivemos Outrora nas recordações - lá ele pode efluir solto sem ameaçar nosso status quo. Por isso vivemos o Outro Lado na grama do vizinho, lá ele pode explodir em fogos de artifício sem que jamais ultrapasse pro ego, pro territóriozinho do eu. Exceto de que pode ser feito diferente. O risco é cruel, não nego: a auto-destruição, a loucura. É preciso margear a loucura. Não é a toa que tantos hippies e punks se destruíram ou enlouqueceram! Eles ousaram sintetizar Outro Lado no seu chão e viver Outrora no presente. Quando isto acontece podemos jogar toda essa tralha neurótica fora - com o risco de nos jogar fora no processo. Não é a toa também que eles precisaram de uma puta recusa política, no nível do político mais micro que é onde ele forma o Aqui e o Agora, pra poder viver a Grande festa da vida (que eles chamavam Amor). O Outro Lado é onde surgem as contraculturas - Outrora é o momento certo. Por isso a sensação de que 68 não acabou, e talvez, sequer tenha começado. Eu disse que Outrora e o Outro Lado eram fruto de uma síntese entre memórias e alguma Outra coisa - que Outra coisa é esta? Qualquer Outra coisa. Embora faça diferença qual, sempre faz - mas o que faz Outra coisa ser outra é a pura alteridade. É preciso abrir um buraco no ego, nas linhas de isto-não-sou-eu, pra fazer passar uma coisa que nem é eu, nem não é - como encontrar um tijolo dentro de sua consciência. Isto é Outra coisa. E com ela você devêm, e com ela você vive o presente muito mais que Agora, você está onde está muito mais do que aqui. A contracultura, neste sentido, é a eterna Grande festa da vida. E por isso ela nunca aconteceu.
"(...) Vou descrever aqui o comportamento sexual praticado por grupos de Homo Sapiens que sofrem de uma gravíssima doença emocional - a normopatia. Entre estes grupos, os machos são detentores de um status incontesto - sujeito neutro de enunciação, tomador de decisões e provedor financeiro. As fêmeas costumam desfrutar de um período relativamente liberal entre o fim de suas adolescências e o começo de suas vidas adultas. Neste período, os machos buscam o intercurso com o maior número de fêmeas possível - o que, feito com sucesso, lhes rende status tanto entre machos quanto entre fêmeas. Para os machos, é importante que este intercurso não seja seguido de uma relação posterior - o que é visto como perda da liberdade, enredamento. As fêmeas perdem status às vistas do grupo quando praticam intercurso com os machos; portanto, só se dedicam a esta atividade quando se asseguram de que ele está suficientemente envolvido no ritual do flerte a ponto de poder encaminhá-lo para um casamento. Uma vez casados, o macho costuma manter uma atividade sexual com outras fêmeas - porém o faz escondendo tal fato das fêmeas do grupo, e portanto, só acumulando prestígio com os outros machos. Uma vez tendo enredado o macho no casamento, a fêmea se dedica a sua atividade usual - a preparação de alimentos e a organização ritual do espaço doméstico - e a atividade sexual se mantém graças à insistência do macho, na busca de sua satisfação. Eventualmente a prática sexual leva à produção de crias, cuja responsabilidade de criação recai sobre a fêmea."
Fragmento do jornal de campo de Paqui Adunur, positivantropólogo do sec. XXIII da Terra Alternativa 12 em visita à Belo Horizonte/Brasil em 2009.
Meio que todo mundo sabe que as coisas funcionam nessa matriz, às vezes explicitamente, às vezes tacitamente. Variantes acontecem e detalhes mudam (muitas das mulheres normopatas daqui parecem curtir um sexozinho dentro dos namoros/casamentos) mas o modelo instituído é esse aí. Ele é expropriador pras mulheres porque elas perdem (a/com a) sua autonomia sexual (o direito de desejar), e perdem sua subjetividade quando convertidas em mero objeto-corpo de satisfação dos desejos masculinos. Alguns homens, incapazes de conquistar o máximo de mulheres ou não-desejosos de tal (românticos, homosexuais, assexuados) são colocados nas posições mais baixas da hierarquia pelos membros dos grupos normopatas (por ambos homens e mulheres). Algumas mulheres, que clamam para si autonomia sexual e rejeitam a ideologia do sexo-enquanto-perda-de-algo, são vistas como não só um objeto-corpo - mas um barato, vagabundo, comum e portanto desinteressante.
Eu rejeitei esse modelo tão logo ele se configurou pra mim. Rejeitei me tornando um romântico; era uma saída segura tanto pela minha dificuldade de cortejar as mulheres quanto pelo meu asco com os grupos normopatas. Decidi encarar as mulheres enquanto sujeitos; declarando não me importar com o sexo, em perfeita contraposição ao normal, eu queria a RELAÇÃO. Apenas para me aproximar delas e ver que elas, por alguma razão que me era obscura na época, não o desejavam; isso não as excitava. Talvez, hoje penso, porque eu havia renegado a corporalidade - a minha e a delas. Ao declarar as mulheres sujeito eu proibí meu corpo de desejá-las, ou ao menos - o que era possível! - de manifestar este desejo. Eu dessexualizei minhas relações ao máximo, só para sofrer com as tensões de meu corpo e pela ausência destas tensões despertadas nelas por mim.
Uma hora, claro, a garrafa estourou. E neste momento eu descobri que tinha um corpo, e que eu precisava vivê-lo se eu quisesse alguma alegria nessa vida. Decidi aprender com os melhores jogadores, os mais pegadores, o COMO FAS de catar mulher. Eu entrei no jogo o tanto que consegui. Eu aprendi a fazer as piadas (que faziam das mulheres corpo-objeto apenas), eu tentei aprender a fugir das relações, eu ironizei (sem muita fé) as mulheres que tinham autonomia sexual. Por trás de todas as piadas eu enxergava uma crítica ao comportamento das mulheres normopatas; eu sabia que meus companheiros homens não pensavam assim, mas saber que eu estava, no final, ironizando o próprio jogo sexual normopata era tranquilizante.
Em um certo momento eu me deparei com os limites de fazer esse jogo duplo. Eu tive de encarar que ou eu partia de fato pra prática e as tratava como objetos-corpo (o que elas estavam acostumadas e o que elas esperavam de um Homem com H) ou dava outro rumo pra coisa. Daí eu larguei o jogo. Daí eu decidi que o único jeito de mudar essa porra toda é que elas e os não-normopatas fizessem uma greve geral, desmontássemos o placar de pontos (o de dentro e o de fora) e começassemos a nos tratar como, afinal, seres humanos. Portadores de corpos e subjetividades nos quais é uma delícia se atirar, dos quais é extático se embebedar, e cujos enredamentos compoem, afinal, quem nós mesmos somos.
O pegador vive a doença. A virgenzinha vive a doença. A vagabunda assumida vive a doença. Qualquer um que se lembre que se tratam de seres humanos, corporal e psiquicamente, atingiu um vislumbre da sanidade. Mas nesse mundo estranho as coisas aparecem ao contrário, e o "louco", o "doidão", o "visionário", o "radical", é aquele que olhou pras coisas e simplesmente constatou o óbvio - enquanto os normais, ou melhor, normopatas, vivem a fantasia de um jogo onde um só ganha quando o outro perde. O amor é o que acontece quando você se afunda em seres humanos de verdade (um ou muitos, à seu gosto); o resto é só fantasma.
O Deleuze fala, mui enigmaticamente, que todo devir começa através de um devir-mulher. Hoje passando na rua vi que a velha revista new age "Planeta" tá de volta aos negócios, e com uma matéria de capa estranha dizendo que a poluição global tá causando uma feminização em machos de todas as espécies, incluindo os humanos. E nós temos ali e aqui os metrosexuais e os emos e scenes e todos esses movimentos de estéticas floreadas. Não faço idéia de o que isso teria a ver com poluição (a não ser que eu quisesse comprar a idéia de uma mente de gaia tentando salvar a si mesma através de engenharia cultural trans-espécies), nem boto muita fé na revista Planeta e nessas categorias de feminino sem prévia problematização. Entre meus amigos costumamos dizer que toda mulher é doida, e eu sempre estive pronto a admitir que essa doideira é fruto da formação bizarra e paradoxal ao qual nossa cultura submete as mulheres. E também admito que somos todos doidos - se não perversos ou obcecados ou paranóicos ou histéricos, somos normopatas e tão pior ser normal nesse mundo louco. E porfim admito também que essa doideira é parte componente indissociável daquilo que seduz a mim e meus amigos em nossa heterosexualidade. Todo devir é problemático (não que alguma coisa nesse mundo não o seja) - ao menos problemático para nossa neurose, pro sujeitinho moderado e comedido que vive em nossas cabeças, problemático pro consenso, pro cotidiano de trabalho e lazer, pras categorias binárias. Problematizar a obviedade do normal é o potencial primeiro do feminino.
O homem é um macaco. As mulheres são canções. É claro que não tou falando de sexo essencializado ou biológico aqui, estou falando de estradas simbólicas no espaço-idéia. Homens podem devir mulheres, ou estrelas, ou canções também. E não falo de canções no sentido literal, e sim que existe algo no devir-mulher que pode ser comparado a ritmo, melodia e harmonia; algo ali que encanta e permeia assim como o devir-música. Depois de ir a fundo em minha sexualidade, em minha obsessão com o sexual, eu descobri (além de uma série de perversões - graças aos deuses, não sou normal) que não se trata de sexo afinal. Passa por ele, ou melhor, por alguma sexualidade, mas no fim é o devir-mulher que me obceca e conduz minha vida pra fora dos eixos. Não é algo do qual eu queira me livrar, afinal; as obsessões são necessárias porque me conduzem pra uma profundidade que eu jamais arranharia tocando minha vida otherwise. Não sei bem como articular com Deleuze e Foucault e seu elogio o a superfície. Me parece que afundar nas coisas é um jeito de chegar à superfície do Outro Lado (ou matar-se sufocado, ou afundar sempre mais e mais pra dentro da fissura e jamais tocar uma superfície - se tudo correr mal) e deve ser dessa superfície que eles estão falando; não a superfície da "falsidade" ou "ilusão" ou "óbvio", pré-problemática e calcada em igualdade e não em diferenças/semelhanças.
E é este devir que me faz feminista, que me faz roubar as roupas da Kátia e da minha mãe pra usar, que me faz ir até as boates e bares e festas e flertar com as mulheres. E me dizem: Iago, que diabos, porque você não faz nada. E tem duas respostas. Uma é que eu não faço nada porque não tenho coragem e eu sofro com isso e espero eventualmente conseguir romper esse lacre e dançar demoníacamente por aí. A outra é que não é necessariamente o sexo que importa, e que isso não é apenas uma situação que eu quero superar, mas também uma situação que me revira por dentro e por fora e me põe a mutar. E as duas são simultaneamente verdadeiras. Eu poderia ser mais feliz se eu fizesse mais, mas mesmo sem fazer mais muitas coisas acontecem. É preciso caminhar devagar, por causa de minhas perversões. Uma vez na aula de francês deram pra gente um papel com algumas formas simples desenhadas (quadrados, circulos e semi-círculos e cruzes) e pediram pra que complementásse-mos com nossos desenhos. E era tudo um joguinho daqueles dos psicólogos e terapeutas vocacionais, talvez sem nenhum embasamento teórico real, mas de resultados interessantes. Na parte que tinha uma cruzinha (tipo cruz de soma, +) eu fiz uma janela, e por esta janela podia se ver uma mulher de frente e em roupas de baixo, com as mãos para trás a desabotoar um sutiã. A cruz (+) era o espaço cujo desenho iria representar meus objetivos. Minha colega do francês me interpretou como um voyeur naquele dia, mas eu acho que é mais sutil. Pra mim a questão é a intimidade.
Estou preso aqui, nessa gaiola que chamo de eu. E minha vida por si só não é suficiente pra infundir propósito, e sentido, nesse mundo mudo. Sofro com uma falta tão grande que é impronunciável, desejo alguma coisa que não sei se existe e que só sei do que não se trata. E daí me fascino com tudo aquilo que me tira de mim e me absorve: as drogas, a música, as mulheres. As pessoas chamam isso de fuga, e o Deleuze vem genialmente com a "linha de fuga" de todo devir. É, são fugas - fugas desse mundo moderado, medíocre e faltoso que habito cotidianamente. São fugas da gaiolinha do eu, rumo a qualquer coisa minimamente grandiosa e grandiosamente minima. Daí a vontade de intimidade, de uma intimidade intocada por minha presença, uma pureza daquilo que é totalmente outro. Um Outro procurado naquilo que eu não enxergo e que potencialmente é tudo. Não necessariamente quero remover o véu. Não necessariamente quero despir as mulheres com as quais flerto. É a minha perversão. Só quero uma espiadinha nos jardins do éden, as vezes visível nas fissuras da pele do rosto da Colombina do momento. Só isso por enquanto, mas quando acontece, eu sempre passo a desejar outra coisa; porque é assim que é devir, e ir devindo. Devenho-mulher para poder devir qualquer outra coisa. E assim viro estrela e canção.
Por alguns momentos estive na beirada do abismo - sim, aquele abismo que atravessa todas as coisas e cria um pequeno e apertado espaço sem luz. E lá, pendurado, sentindo o condensar na barriga, puxando pra baixo, eu me virei acima e pedi: dê-me uma luz! Alguém! Qualquer um! E pela minha mente correram todas as coisas belas, justas e boas que consegui pensar, tudo aquilo ao qual tento dedicar a minha vida. E nada daquilo era suficiente para redimir o mundo; tudo quinquilharia podre e quebrada, tudo tão vergonhoso e imperfeito. A dança, o amor, o riso... Eles não eram fundamentos de nada, e sim acontecimentos a partir de alguma outra coisa. Eu sabia que qualquer resposta partiria de mim, dependia de eu me posicionar... Mas como? Posicionar-se como? O que devemos buscar nessa vida? O que fazer uma vez que estamos aqui? Não sentia em mim o poder de criar luz e dar sentido a isso tudo... "Don't panic", repetiu o programa-salvaguarda em minha mente. Consegui resgatar alguma ironia disso tudo, eu que nunca tinha ido tão fundo no abismo, sempre tão seguro de mim e tão racional... estava enlouquecendo. Ou assim parecia. Olhando pro espelho e pensando: meu ego está conservado demais, não pode ser uma crise psicótica... E os momentos apavorantes no banheiro fechado. Não me espanta que as pessoas se suicidem no banheiro, existe algo de cruel neles... É um verdadeiro espaço de dentro de nossas arquiteturas psíquicas, precisamente o mais íntimo e mais impessoal de todos. Pedaço de lataria limpa e asséptica, templo das fezes e dos vômitos. Ali poderia ser consagrado o abismo, na feitura do ato ritual antiquíssimo do vomitar (mais antigo que a própria cultura, talvez tão antigo quanto a primeira membrana celular...). A ayahuasca tem disso, dessa coisa sofrida e épica de dimensões profundas que é o existir. Um momento de heroísmo e tragédia pra um pequeno burguês dum mundo sem mágica. Um momento de castigo, sofrimento e mágoa, misturadas ao contato humilhante com algo mais puro e belo que jamais se desvela completamente. Nu perante o infinito! Por trás de mim todas as danças de átomos desde o começo do big bang, de frente a um buraco-negro-no-fim-dos-tempos que a tudo arrasta e que compoem o próprio tempo-espaço extendido que experienciamos na vida.
Se era meu posicionamento que faltava, eu precisava escolher algo pra fazer! O que quero? Quero fazer algo de bonito - meu desejo mais sincero, em sua forma mais intensa. "Mas como?", me respondeu a Outra Voz. E eu disse no mesmo tom: "Como fazer algo de bonito?" e resposta nenhuma me veio. A pergunta portanto se repetiu, e se repetiu, e continua aqui. Uma resposta parcial eu tenho - a que eu temia olhar! Que é a disciplina. É preciso disciplina para moldar esse mundo, porque a vida é difícil. Mas continua o resto. Se eu quero ser um artista, um ártifice de idéias, conceitos e imagens, eu preciso ter algo a dizer. O que? O que posso levar as pessoas que de alguma forma produza e beleza? É preciso falar da vida, falar das coisas da vida, tocar no pequeno - molecular - infinitesimal dos gestos e palavras e detalhes que ornamentam a jóia da terra. Andamos por aí tão enganados, deuses. Queremos (quero!) orientar a vida pelas grandes idéias, esses conceitos que parecem fundamentar o ser: riso, luz, cor, beleza; entretanto, essas coisas não são objetivos, ou guias, ou mesmo moldes nos quais os fluxos do mundo se encaixam... e sim o contrário: são frutos dos fluxos do mundo (e fluxos, também, por sua própria conta). Tudo antes parte da vivência, da experiência, da eterna inovação-na-repetição desse octavarium. Aí estava o erro de procurar algo que redimisse o ser; porque o ser em sua saúde não pede por redenção, ele não precisa de se sustentar em luz transcendente nenhuma, em princípio algum, e sim o contrário: ele produz a luz, assim como no abismo ele produz a treva (e todas as variações que possamos imaginar de coisas potencialmente existentes). É à vida que eu sempre volto, e o pensamento vem sempre em segundo a vida! O pensamento é sempre essencialista e grandioso; a vida é sempre pequena e perspectiva e tão ricamente detalhada quão mais de perto a olhamos. Que erro, que grande erro, tentar guiar a vida pelo pensamento... Pelos conceitos e idéias e valores que antes de tudo emergem dela, e para ela. Não é a liberdade, ou a anarquia, ou a dança que eu devo buscar, e sim a aqueles cruzamentos que acontecem, aos pequenos momentos com as pessoas que amo. A percepção da imanência.
E daí brota a anarquia, brota a dança, brota a beleza. Minha busca nessas grandes coisas vem de um medo primordial, o medo neurótico das coisas como simplesmente são. Do que acontece. Da pequenez e especificidade de cada contorno e dobra do mundo que se desvela.
Naquela hora, naquele abismo, eu nem me lembrei de invocar Promethea; talvez ela não pudesse entrar lá (e isso implica que sua idéia não poderia o fazer). Entretanto, nela novamente, eu encontro uma ponte para o que está lá fora. Para abrir os manancias da criatividade que jorram a luz nesse mundo. Com isso, e com a disciplina, me faço o Fluxo divino que produz a beleza, o riso, a dança.
"-What are they doing? Who made this place? Why?
-The crack runs through everything. And everyone. Without it, we would be perfect, like angels, and as dull."
Ego-trip do cacete esse título. Mas enfim, pra que um blog senão ego-trip, uh? Se os caras fodas podem (to pensando isso enquanto leio um texto do John Lilly. um dos caras fodas. ego-trip do cacete também, mas é uma refeição pra mim) eu também posso - dadas as proporções desse blog e de um livro publicado editorialmente etcetc. A questão do título: atravessa tudo que faço nessa porra de vida. Acho bom que atravesse mesmo. Não precisa ser respondida de forma conclusiva; mas precisa de colocações, de posicionamentos. Isso tudo vem de hoje de manhã. Dormi tenso - tenho dormido tenso todas as noites! - pensando na monografia, pensando que tinha de acordar dali a três horas e meia pra encontrar meu orientador pra o big momento onde ele pega a monografia e diz se rola ou não rola. Escrevi esses meses todos sem a menor idéia se tava fazendo direito. Bem, eu não tava. Era de se esperar, uh? A gente passa a graduação inteira escrevendo trabalhinhos de disciplina nada-com-nada e é na monografia que você pela primeira vez é cobrado em escrever algo NA REAL. Por mais que tudo sirva de preparação, é só fazendo que você se depara com os limites do que dá e do que não dá. Daí ele pegou e, mui justamente, picotou a golpes de espada boa parte do texto. Até aí tudo normal (afinal de contas, só estou aprendendo) - exceto que eu queria apresentar esse semestre, e só tenho doze dias pra voltar e fazer direito. Não rola, a não ser que eu faça serviço porco - diz meu orientador: "se você consertar essas coisas que te disse pode apresentar esse semestre ainda, mas não lhe garanto conceito bom, só aprovação". Nem fudendo, cara. Eu disse. "Se tenho a carta na manga do trancamento total, vou usá-la agora." Minha vaídade intelectual não me permite fazer uma parada medíocre. Mas tem mais do que vaidade aí - ou, colocando em outros termos, minha opção por seguir minha vaidade tem mais envolvido. Tem envolvido quem sou eu.
Uma das questões de dissenso é a tática do texto. Acho que não disse isso aqui ainda, mas estou trabalhando com "psiconautas" - é, antropologia, estou fazendo uma etnografia sobre essa "tribo online", coloquemos assim. E esses psiconautas, uh, usam drogas. É um tema diretamente político na medida em que trata de uma questão de vida ou morte pra muita gente - isso pra não dizer de nossa sociedade... (há! aqui eu posso ser dramático e exclamativo! hehehe). Mas enfim, eu ter me envolvido com esse tema tem a ver com toda uma mobilização no sentido de possibilitar fazer algo que eu gosto, falar o que quero e fazer alguma diferença nesse mundo com isso. Esse último ponto é crucial. Eu não escrevo aqui no meu blog pra mudar o mundo - esse discurso não tem este poder. O discurso acadêmico tem. Cabe a mim saber como empregá-lo. Não quero dizer que vou mudar o mundo sozinho ou coisa megalomaníaca assim; trata-se de juntar minha voz a um coro, a abrir fronts vantajosos e salvaguardar fronts onde estamos perdendo. Metáfora de guerra. E isso tudo pede uma estratégia. Meu professor aconselhou expressamente: se infiltre. Use o discurso "sério" científico pra ser ouvido. Prove seu ponto nos termos "deles". Cara, concordo totalmente que isso deve ser feito... Tirando que este não sou eu. Não é isso que sei fazer e estive fazendo todo esse tempo. Eu sou o cara que anda de saia na faculdade, eu sou o cara com as idéias estranhas e sem medo (aparentemente, duh) de que desconsiderem o que falo - sabe porque? Porque confio no meu taco. Bem, se confio, é hora e usá-lo. Há alternativa, que é entrar na guerra, armar-se, submeter-se ao risco de levar fogo... Foi isso que aprendi com Nietzsche. Precisamente isso. O meu orientador por várias vezes usou o exemplo dos evangélicos se infiltrando na academia pra provar seus pontos. Como "isso não deve ser feito assim. Percebe quanto é parecido?". Sim, é parecido. Eles querem mudar o mundo do jeito deles, eu quero do meu. Eu e a galera da quebrada, os psiconautas lá. Nietzsche me ensinou ISSO, e precisamente ISSO: não se trata de deter ou não a verdade verdadeira, e sim de PRODUZÍ-LA no conflito. As verdades emergem de conflitos. E o essencial dentro disso tudo, depois de se ter consciência da diversidade, é se posicionar. Ficar falando "tudo é relativo etcetc" que nem eu fazia é um PORRE, e pra mim isso é o mimimi da pós-modernidade: "oh, perdemos as referências, nada mais é verdade". Nunca foi, docinhos. Agora é o momento onde novas idéias podem surgir e se fortalecer na cultura, porque as idéias "absolutas" foram pro saco. Agora, o essencial é se POSICIONAR. E tendo em vista isso tudo que eu acredito, isso tudo que eu quero, isso tudo que eu li, não desejo voltar atrás e fingir neutralidade. É uma tática? É, sim. No amor e na guerra vale tudo. Na verdade, sempre vale tudo, trata-se só de o que você deseja fazer, o que quer produzir. Eu quero produzir sinceridade, não a sinceridade da verdade verdadeira, e sim a sinceridade da verdade construída. Essa é minha querela agora. Não sei fazer isso ainda, como disse, estou só aprendendo. Optei hoje pela minha "integridade", por valorizar tudo isso que tive pensando e vivendo: ou seja, me levar a sério. Pode ser feito. É claro que meu orientador não disse que não pode - ele não é meu oponente nessa história. Mas ele advertiu - e eu concordo! - que se posicionar implica em entrar numa guerra que poderia ser contornada. Tudo bem: é esta a guerra que eu quero lutar.
Esse vai ser um post curto, acho. Não é hora de colocar as coisas em termos ainda, porque o termo é o término e tudo ainda está fluindo como líquido. Não conseguiria ir dormir agora sem vomitar um pouco daquilo que eu tenho por dentro; de toda essa água parada. Agora eu entendi o que queria me dizer, afinal, aquela carta que encontrei jogada na rua - aquele oito de copas. No tarot significa "Indolência". O cenário da carta é desolador; a agua que flui das copas é tóxica; nada brota do chão. Foi daí que eu comecei minha reflexão com a preguiça, Preguiça, pregos, estar pregado. Todos estamos de alguma forma pregados na cruz que jesus sofreu. A era de aquário foi colocada como a resolução disso tudo: um anjo carrega um vaso de onde jorra água. Porto alguma coisa que desejo oferecer ao mundo; se ela fica parada aqui dentro da urna, se torna veneno. Porto a água que é o próprio mistério; o licor divino da maravilha. Toda comunicação é de duas vias; se acredito que tenho algo a propor a esse mundo ao meu redor, não preciso antes entendê-lo? E entendê-lo não é recebê-lo em mim, acolhê-lo em meu âmago? Tenho dificuldade em aceitar os outros. Acho que é a dificuldade do aquariano, a dificuldade de receber. Não quero implicar que isso se extenda sobre todos que por sorte ou azar nasceram numa certa data do ano. Quero falar de símbolos; símbolos que permeiam a minha vida, e consequentemente, a minha magia. Uma vez tive um sonho onde eu estava em uma bela igreja, perto de ouro preto, e ela tinha nos fundos quatro quartinhos pequenos, cada um decorado ao estilo de um elemento. Entrei lá dentro e me acolhi no quartinho do ar, e no da água, que eram os que eu me sentia mais a vontade. Mas o ambiente todo era inclinado e eu tinha medo da igreja desabar. O equilíbrio entre as coisas não estava bom. Lá fora, seguindo um caminho pelas montanhas, uma série de operários montava no centro de uma praça uma espécie de obelisco de cristal, colocado sobre uma esfera grande cujo material eu não lembro. Isso tudo sobre uma engrenagem que parecia uma mandala. Clara metáfora para o self e a individuação. De uns tempos pra cá andei tirando bastante cartas ligadas a paus. Estou descobrindo aos poucos meu fogo interior, meu desejo, meu tesão, meu falo. Assumir uma postura fálica; expirar vida aos outros. Pro sistema todo funcionar preciso respirar direito, rearrumar todo o sistema respiratório-oral-tabagístico-linguístico. Sorte que to com a faca e o queijo na mão, uma amiga me emprestou um livro do Gaiarsa sobre sort-of-psicanálise e respiração. O vento faz o fogo dançar. Tinha sonhos recorrentes com um mar entre quatro paredes também. Dentro desse mar às vezes vinham tubarões. A sensação de água retida é incômoda, quase vexatória para mim. Tem alguma coisa de unir fogo e água nisto que estou fazendo; alguma coisa da Arte e da união dos opostos. Eu represo esse mar dentro de mim porque tenho medo de que, uma vez abertas as comportas, eu seja arrastado junto no processo e acabe me destruindo. Esse medo está diluído em cada vez que eu seguro, cada pequena trava muscular/energética. O tempo urge, me avisam os meus sonhos. No da noite passada saí para colher cogumelos e eles já haviam sido torrados pelo sol: tarde demais. Cogumelos só nascem num equilíbrio fino de calor, sombra e umidade, difícil de reproduzir em ambiente controlado, mas que a "natureza" nos fornece todo verão. O que me lembra: é da bosta que nascem os cogumelos. É uma bosta ser quem eu sou no mundo em que estou. Mudo ou não mudo? Prefiro continuar falando. Ao menos até que eu aprenda a hora certa de me calar e escutar. Olhando pras coisas, assim, sempre me vem idéias de como fazer de um jeito novo e interessante. Ser um exemplo vivo: é este o meu salto? Das palavras pra ação? Já pensaram nesse intervalo? É a disjunção, o abismo, a rachadura no fundo do Ser; por um momento, não estamos nem lá nem cá. Momento proibido. Movimento pro-libido. Divago. Este post ainda não terminou.
Eu vivo na maior parte do tempo como se não fosse comigo. Como se eu só estivesse aqui por uma coincidência, acompanhando alguma coisa ou alguém. Fugindo de cada momento para qualquer ficção que esteja disponível, ou simplesmente adiando alguma coisa que deveria chegar. Sou num universo que é como um ponto de ônibus, um vago interstício desinteressante e passivo onde muitas coisas acontecem mas basicamente não importa, em breve o ônibus vai chegar e vou estar bem longe dali.
Sinto tanta falta de que o mundo me interpele e me conte: escuta, é com você agora, não há ninguém entre nós, nada... É a sua vida que está em processo nesse exato instante e você está na vanguarda dela. Porque não acredito que possa mudar. O mundo parece uma eterna repetição de tudo o mais, todos os dias se arrastando em fila como morosos elefantes, tão pouco frescor nesses momentos batidos. Não parece que eu tenha alguma escolha afinal... porque eu estou sempre me cobrando; sempre me empurrando; porque eu sei que posso ir além. Mas logo ali tem uma barreira e eu nunca passei dela. Não conheço o outro lado, não full-blown e cheio de efeitos especiais. Me contentei com quinquilharia mágica de terceira categoria, "gear de padaria" como diriam os meninos... Conhecimentos de padaria, dinheiro de padaria, amizades de padaria, romances de padaria. Ah. Eu não acho que meus amigos ou a mulher que eu amo sejam de alguma forma inferiores a qualquer coisa. O problema é que simplesmente não parece de verdade. Como eu disse, não é comigo. Ou é, mas eu nunca consigo a coisa em si! Eu nunca consigo o amor como ele deveria ser, a amizade como deveria ser, a viagem como deveria ser, a festa como... etc. É a grande frustração de viajar em geral, eu chego naquele lugar distante que eu sempre almejei, tipo São Paulo, e descubro que é só mais uma... cidade. Uma repetição ligeiramente diferente de um conceito já familiar. Certo, tem algo de legal lá, aquele ar elétrico e aquelas pessoas de modos estranhos, mas... e agora, o que faço? Agora que estou aqui? Talvez eu não tenha chegado.
Claro que tem os devires... Aquelas horas onde eu estou doido de maconha, e piso na areia da praia e o mar é tudo, abrindo asas de costa, vento frio e sol quente na cara, cheiro forte de sal, tudo totalmente intenso e cheio de frescor. Claro que tem essas horas. Mas será que é pedir muito que a vida seja assim? Pelo menos mais do que essa coisa rara e ocasional, como se apaixonar ou reunir todos os amigos num lugar incrível e distante? Lá em Porto Seguro, esse ano, foi tão isso. Quando eu estou a sós com a Kátia e esqueço de quem sou (os grandes, os melhores momentos) perdido no olhar dela, devorado por aqueles olhos brilhantes, cabeça girando por causa da paixão, é incrível. Mas quando estamos simplesmente por aí agindo como um casal... é como se fosse sempre um grau a menos de realidade do que o romance do Danilo com a Nádia, ou o de qualquer pessoa que eu idealize como Grande Pessoa. E Porto Seguro foi tão... passado, tão nada novo, tão apenas-o-esperado. Eu parei de acreditar no inesperado, e consequentemente ele não acontece - pelo menos porque não estou receptivo aos "bons" inesperados.
Esse sábado eu sonhei com uma orgia. Sábado passado eu sonhei com o mesmo tema. Ambos eu dormi no mesmo lugar, na verdade segui uma pacata (e reclusa) rotina muito similar. E esse mesmo sonho espoletou duas vezes, como uma faísca sendo produzida no atrito de engrenagens muito pesadas e velhas. Nesses dois sonhos a orgia não estava acontecendo, nem tinha acontecido; estava sempre por vir, sempre na iminêncina... Como se o ônibus fosse finalmente chegar mas nunca chegasse, me deixando suspenso aqui neste enquanto-isso asignificante. O Maffesoli, sociólogo o qual andei lendo, diz que o tempo de Dionísio voltou; que a tal da pós-modernidade na verdade é o retorno o homem ao gozo do transitório e do aparente. O que seria primordialmente uma boa coisa, uma revalorização do ser, a queda desse maldito meme de transcendência que infectou nosso pensamento. É bem verdade, eu enxergo muito disso despontando ainda timidamente nos mais jovens - a geração que segue a minha é uma particularmente estranha. Eu fui metal e andei na praça da liberdade, e isso foi alguma coisa. Eles estão vivendo em um outro mundo. A diferença é de cinco, seis anos mas a vida que eles levam é praticamente outra. Eu os invejo. Eu sinto que meu tempo passou e que eles estão curtindo o que eu não pude. Que agora meus amigos vão adentrar casamentos, constituir família, arranjar empregos e vai ter sido isso aí. E eu não quero, não vou, de forma alguma. Eu tô aqui nesse esforço pra me superar e construir uma relação - várias, na verdade, por definição - poliamoristas, como um investimento no que acredito. Uma forma de driblar o esquema truncado da família nuclear e tentar fazer algo novo. É difícil ser poli nesse mundo que eu vivo, quase sozinho com isso. Destruir o mito romântico na minha cabeça foi a única forma de escapar da valorização do outro como forma de justificar a própria existência; foi a única forma de pegar nas minhas próprias mãos as rédeas de minha vida. Mas eu perdi um encantamento com essa vida tão grande desde que eu larguei o mito romântico.
Eu sonhei dois sábados seguidos com uma orgia iminente que sempre escapava. Isso pode soar aleatório mas pra mim é tão forte. E não em nenhum sentido simbólico, é no mais literal: o eixo que orienta a minha vida é o sexo. Ainda é a forma pela qual eu articulo as forças mais profundas de meu ser, de minha magia, de minha caminhada por aqui. Eu nunca fui um pegador e não sou satisfeito com isso. Não tenho absoluta preocupação de pegar muitas mulheres para parecer foda e pintudo para meus amigos; não é por eles, ou eu poderia dizer talvez, seja uma das poucas coisas que eu não faço pelos outros; é pela coisa em si. Pela coisa real. (Se eu ainda acreditasse nas mulheres. Que eu poderia conhecer várias delas que são incríveis, algumas delas quem sabe intelectuais. tenho de falar disso fora de parênteses, é importante). Porque eu estou cansado de que olhem pra mim e decidam se eu sou do tipo que pensa sobre a vida ou que vive a vida. Eu sou os dois! Ou, eu quero ser os dois. Porque a verdade é que eu primariamente penso. É só que eu sei que não existe uma oposição. Eu só tenho de aprender a viver. É sempre isso, um aprendizado que precisa ser feito... Aprender a ser cafajeste, aprender a conversar casualmente com desconhecidos. Aprender a dar idéia em mulher. Como eu disse, tudo sempre passa pelo sexo. Se algum dia eu me tornar poderoso e acreditar em mim mesmo e em minha vida é porque ou enquanto eu estou pegando um monte de mulheres. E isso não quer dizer que eu esteja cheio de relações superficiais e transitórias; e sim que eu estou mantendo uma série de romances - cada um indiosincrático, cada um criativo a sua forma, engrandecedor (como o com a Kátia é). E todas essas mulheres tem romances com outras pessoas e/ou entre si e somos com uma grande tribo. E porfim chegamos a orgia. Alguns dos relatos que eu li sobre os hippies nos late 60 me fazem parecer que eles viveram a vida que eu quis: uma vida dedicada à fruição do ser; uma vida cheia de belas mulheres com algum conteúdo, interessadas em alguma coisa, portadoras de suas indiosincrasias. O lance da mulher intelectual que eu disse; eu acho que nunca conheci uma que gostasse da coisa de pensar como eu gosto. Não que eu não tenha conhecido mulheres inteligentíssimas, mas que tivesse um amor ao pensamento, que tivesse como um hobbie pensar... e que soubesse que isso não se opõe a viver a vida. Que não olhasse para mim e se perguntasse se eu vivo a vida ou penso a vida. Essas oposições, vadia versus mulher pra casar, calhorda versus príncipe encantado não fazem o menor sentido. Porque elas desconhecem a raposa, a sedução da raposa e da rainha fada, traição e entrega na mesma mão, poder e submissão simultâneos. As oposições categóricas ignoram os paradoxos - porque este é um mundo de paradoxos. Exceto que ele não parece isso, exceto que ele se arrasta, exceto que todos os dias é uma vida de mentira onde as coisas só se repetem e essa barreira que separa a minha vida de uma Grande Festa da Vida nunca é atravessada. Que o mundo nunca cessa de ser uma simulação fantasiosa do mundo. Eu não posso aceitar que é só isso.
Por isso preciso de velocidade. Por isso preciso devir, devir furiosamente, destruir meu eu no processo. Sábios são, dizia Zaratustra, aqueles que produzem a própria destruição. Para desabrochar em um super-homem, dar luz a uma estrela dançarina. Explodir de súbito ao invés de queimar aos poucos... Isso nunca foi para mim, tão caseiro, tão tímido, tão... passadio, esvanecente, passivo. Não sei fazer diferente e hoje já não acredito que eu possa - como acreditei por esses últimos anos! - aprender a viver.
Eu estou
de volta aos negócios. Vendo, troco e empresto idéias bizarras. Interesso-me por qualquer coisa de exótico, misterioso ou selvagem. Se for enviar animais, assegure-se de que hajam buracos nas caixinhas. Até mais e obrigado pela consideração.