Domingo, Outubro 03, 2010

O golpe da maturidade

Quando entrei na faculdade, peguei de cara um professor de economia extremamente neo-liberal. Eu nem sei explicar direito o que é neo-liberal. No uso comum, é um xingamento genérico equivalente a "escroto". O cara realmente era um escroto - "meu problema com a pobreza é que ela é feia. pobre é feio. por isso prefiro um mundo com menos pobreza" - mas não sei até onde isso advinha da liberalice do cara. Se for pra ser preciso, eu diria que ele era simplesmente um liberal clássico, Adam Smith sem muito mais. Foi uma das melhores aulas que eu já tive.

Primeiro, porque eu era um comunista de ensino médio. Ser um comunista de ensino médio é um ótimo negócio - você ganha uma narrativa pra sua vida onde você não precisa fazer nada, pode xingar todo mundo e se saber muito superior, porque eles são só uns porcos capitalistas. Acima de tudo, ser um comunista de ensino médio é ter pouca paciência com o passo-a-passo do raciocínio e querer ir direto as conclusões. Eu era super nacionalista, tinha um monte de argumentos para isso, mas cada um deles ruiria se examinado de perto. E foi isso que esse professor fez comigo; ele fatiou em pedacinhos tudo que eu acreditava, me forçando a voltar a estaca zero e pensar as coisas com mais calma.

Tenham em mente que ele era um professor de faculdade, e eu um adolescente gótico. Não tinha muito que eu pudesse fazer contra a investida retórica. Mas eu precisava. Até virei um liberal por um tempo. Mas depois fui radicalizando - de liberal a minarquista, de minarquista a anarco-capitalista, de anarco-capitalista a simplesmente anarquista. Hoje eu diria que entendo de que posição esse professor falava - não que eu domine os conhecimentos que ele dominava, mas simplesmente porque entendi o conjunto muito simples de premissas de onde ele deduzia tudo o mais. E entendi também quais eram as premissas de ser um comunista de ensino médio. E vi que, examinadas de perto, elas todas ruíam.

Por exemplo, na economia liberal - a teoria dos jogos e seu filho favorito, o dilema do prisioneiro. Não tem nada errado com a teoria dos jogos, tirando a obviedade de que a vida não é em si feita de jogos - a vida em si simplesmente acontece - o mapa não é o território. E todo mapa é necessariamente tendencioso, porque você tem de escolher quais detalhes entram e quais não entram. Sendo o universo é praticamente feito de detalhes , qualquer sistema pra funcionar tem de tosquear dramaticamente as coisas. E aí vem a tal da "racionalidade". A teoria dos jogos é baseada na idéia de que as pessoas se comportam como agentes racionais. Isso aí por si só ja trás um monte de premissas silenciosas: que em algum momento, alguma instância do ser, surge algo que é claramente definido como um "agente" - um fazedor de escolhas unificado - um indivíduo. Não to falando que existem ou não existem indivíduos (é importante ir com calma!). O que tou falando é que o mapa não é o território, e se você vai desenhar um mapa compondo-o com indivíduos, quando você for por seu modelo em prática, você vai encontrar indivíduos. Simples assim. Você procura, você acha. No caminho, você deixa tudo aquilo que não se encaixa.

Agora a tal da racionalidade. Taí um ponto complicado: eu não sou contra a razão. Ela acontece, ela produz certos resultados, e geralmente são dos bons. Mas é fato também que as pessoas nem sempre são racionais. Por exemplo, elas se sabotam. Se você ouvir bem a caras como Reich, a servidão voluntária é uma gigantesca sabotagem coletiva perpetuada ao longo dos séculos, e tida como completamente racional. Idem para a desigualdade absurda de renda que nos rodeia. Os tais agentes as vezes se comportam racionalmente, as vezes não.

Por último, razão e valores são duas coisas diferentes. Você pode ser perfeitamente racional, mas jamais vai deduzir simplesmente disso algo que se assemelhe ao bom, ao belo e ao justo universais. (Foda-se Kant. Só isso a comentar sobre esse tópico) Simplesmente porque a razão é algo que acontece na sua cabeça, dentro de uma perspectiva, dentro de um corpo, em um planeta, em um dado momento, em um certo sistema solar, e portanto só computa dados relativos a essa perspectiva, corpo, planeta, momento e espaço, baseado em contingências anteriores dos mesmos. Ou seja, mesmo a razão ainda é demasiado provinciana pra arcar com coisas galáticas como "valores universais". E portanto, só nos restam esses valores que tamos acostumados a ver por aí - os relativos.

Se um bando de pessoas valoriza altruísmo, e se sentem bem sendo altruístas, os resultados de suas computações racionais vão conduzí-los a agir altruísticamente em muitas situações. Simplesmente porque esse é o valor que jogam pra suas cabeças computar. Então, aquele papo de que a economia prova que somos egoístas é só uma viagem fraca de pessoas que olharam pra nossa sociedade, viram como as pessoas se comportavam, e ingenuamente pularam direto pras conclusões decidindo que é assim que o humano é. É claro que eu concordo que dados certos valores, e armados certos jogos, agentes racionais vão escolher "trapacear" visando a própria bunda. É disso que se trata o dilema do prisioneiro. E não prova absolutamente nada de coisa alguma a não ser que você encontre esses valores e jogos no mundo. Se encontrar, ótimo - você tem um mapa, e isso só aumenta seu potencial de ação! Quero dizer que os valores e jogos que estão no mundo não precisam ser simplesmente aceitos: eles podem ser mudados.

O ponto crucial pra mim foi a antropologia. O contato com a alteridade radical foi mais forte que os modelos econômicos: perto da diversidade das organizações econômicas - e míticas - das sociedades primivias, as bases do pensamento liberal se tornaram "umas em meio as demais". Como a maioria, demasiado provincianas, demasiado etnocêntricas. Então, se é tudo um leque de possibilidades - aberto para nós - sobre como vamos compor nossos corpos, nossas mentes, e nossas sociedades - cabe ao pensador radical decidir para si o que vale, e o que não vale, o que é preciso manter e o que é preciso descartar. E é preciso ser cuidadoso.

Cuidadoso porque nem eu nem você somos os primeiros a fazer isso. E muitos antes de nós se destruíram ou - acabaram arrependidos. Eles consideram que superaram o que chamam adolescência, não importa quanto tenha durado, e que a maturidade trouxe o aprendizado de que no fim não há alternativa desejável ao status quo. Eu quero questionar o que é essa maturidade. Porque é preciso ir devagar, é preciso ser metódico, ou então vamos pular direto as conclusões e vamos ter perdido uma oportunidade de ouro - uma oportunidade de explorar as potencialidades múltiplas do que é ser humano. Se formos rápido demais às conclusões, podemos cair em uma solução encaixotada - em uma das soluções simples que estão por aí, e que não tem nada de simples (exceto a tentação da facilidade), e que mantém a humanidade travada em uma servidão voluntária que dura milênios.

Se quando dizemos maturidade, dizemos "perder a pressa de chegar às conclusões e abordar os problemas em sua complexidade", então viva a maturidade! Esse é o amadurecimento que eu vivo, esse é o amadurecimento que resultou do contato entre eu e o meu adversário mental constante - o professor de economia - e que me levou a uma visão de mundo muito mais rica e nuançada, e que continua a me propelir a investigar as causas profundas de sermos o que somos. Mas reparem que tudo isso que eu disse diz respeito a COMO se faz as coisas, e não ao QUE se faz.

E muitas vezes achamos que amadurecer é sobre o QUE se faz. Que é sobre ir trabalhar, formar na faculdade, usar tais roupas, compor a família de tal jeito ou qual jeito, representar um papel. Procuramos a IDENTIDADE de adulto, achando que vai nos dar a maturidade. Mas a identidade não passa de um monte de soluções fáceis para as coisas - a identidade não passa de ir direto às conclusões! Buscar a identidade de adulto, portanto, é tão imaturo quanto a busca por uma identidade de um adolescente - a busca que me levou ao comunismo. Olha, eu não tou dizendo que é imaturo que as pessoas decidam ir trabalhar, formar na faculdade, usar tais roupas, compor a família de tal jeito. Eu suponho que uma pessoa pode maturamente chegar a essas opções, dependendo de qual for os mapas que informam a existência dela. Contudo, as chances são de que - se você levar o esquema da maturidade até seu final, você vai tender a conclusões singulares - a ser um pouco esquisito, um pouco só você mesmo, e portanto ser menos "todo mundo". As chances são de que aflore em você um híbrido estranho - que na verdade é a coisa mais natural do mundo, essa terra de misturas!

Eu não estou dizendo que eu "SOU" maduro. Isso seria um besteirol do tipo identitário também. Eu sou o que acontece. Mas que estou sempre buscando agir de forma madura - no melhor de minha capacidade em cada momento. Estou dizendo que eu valorizo isso, e que outras pessoas talvez não valorizem, e que provavelmente por isso nós somos inimigos em algum nível.

O mais importante, pra mim, é disseminar essa percepção: de que a maturidade não tras consigo uma identidade, muito pelo contrário - de que a maturidade está em recusar as soluções simplificadoras - e não em abraçá-las simplesmente porque é o que "todo mundo" faz. É disseminar a percepção de que não importa tanto quais são os seus valores, e sim como você chega neles. E de que é ISSO que precisa ser discutido, pensado, analisado, para que evitemos as generalidades. Eu conheço vários ex-radicais. Que abandonaram envergonhadamente seu radicalismo porque era uma coisa ingenua, pouco pensada, e daí foram caçar as identidades do status quo. Porque "é hora de crescer". Dói os ouvidos! Sejamos maduros e investiguemos tanto as identidades do status quo quanto as de alternativo, radical, contracultural, hippie, o que for. E se você acabar se parecendo, pelo próprio processo de investigação, com várias dessas coisas - que assim seja! Escavemos até onde der para ser escavado.

Mr. Six às 19:25

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Quinta-feira, Setembro 23, 2010

Explicando de novo - do que se trata essa porra toda mesmo

Alguma coisa me tocou, como um vento que sopra do futuro, e me sussurrou palavras de luz negra. Eu ouvi que uma outra vida é possível, algo além de todas as expectativas; ouvi que é possível fazer o espírito queimar como uma estrela-cadente. Não foi de modo algum uma escolha minha, nada de voluntarismo: surgiu como uma pressão que vem do âmago do ser, um grito, uma demanda que me por vezes me arrastou até os abismos da falta, mas que muitas outras vezes me inundou com o alucinado halo das estrelas, com a Maravilha, e me fez provar de uma sublime aura que só posso descrever como Magia.

A busca que se segue me conduziu até lugares inesperados: ao brut, com os primitivos e os esquizofrênios, ao drop out, com os hippies e com os punks, ao cotidiano, com os situacionistas, e acima de tudo ao Outro Lado, com os grandes magos do século XX - Aleister Crowley e Robert Anton Wilson, Philip K. Dick e Antonin Artaud, André Breton e Deleuze & Guattari, Grant Morrison e Alan Moore, Reich e Castañeda, Pierre Clastres, Nietzsche (é seu o século XX) e Foucault e Hakim Bey, entre outros. E eu vi que eu não era o único tocado por uma estranha urgência, tanto mais por saber que -- se estes se tornaram famosos, quantos outros não se lançaram em busca similar e simplesmente foram esquecidos, desapareceram da história, e quantos outros portanto hão de estar hoje Invisíveis por aí!

Um pouco disso é ingenuidade, um pouco é inocência - que aliás é algo absolutamente vital se quisermos que isso tudo valha a pena. Mas, por outro lado, tenho uma outra voz que me sussurra: é preciso portar uma espada e é preciso ser estratégico. É preciso atravessar o Jogo, e isso implica o risco. É preciso se lançar a um caminho tortuoso, é preciso abandonar em alguma medida os confortos da vida burguesa, a segurança de uma identidade, a estabilidade de relações au establishment, o escapismo do espetáculo e da fantasia. É preciso adentrar terras novas para que possarmos dar luz a alguma coisa impensável.

Minha principal arma de batalha é o texto. Estou consciente da hubris que isso pode trazer. Digo portanto: o texto não é de modo algum superior a qualquer outra arma; é apenas igualmente imprescindível. Não é, também, algo incomum, nem privilégio de uma inteligência acadêmica (nem de longe! quanto mais hoje! que o digam o poeta de rua e o blogger). Sei que meu texto cheira a academia - não é preciso grande faro - e são essas minhas contingências, é por onde passei e é de onde eu extraí boa parte do material com o qual me construo. Por isso, e por muito mais, falo para poucos. Nesse negócio de encontrar os limites disso que se chama vida, só existe falar para poucos, com as minorias que há em nós. Só o demagogo fala com todo mundo.

Sozinho seria incapaz de fazer sequer uma faísca audível na estratosfera, mas não estou sozinho. Algo relampeja pelo mundo, expande-se quando pode, esconde-se quando o tempo é ruim, algo está alerta, tensionando, carregando, destensionando e descarregando, nos ritmos que lhes são próprios. É este o "relâmpago que nos irá fazer derrotar nossos inimigos". É este o escorpião, aquele que já era sábio no despontar do neolítico, cujo ferrão atravessa vários nomes sem nunca se deixar nomear, o desprezível escorpião que se esconde na poeira do cotidiano, na sujeira do terceiro mundo e por entre as brechas de nossa percepção.

Não sou exatamente "eu" que escrevo - não é questão de opção. É algo que vem, com fúria e vigor sempre renovados, algo que abençoo pois me infunde de vida mas também algo que amaldiçoo pois não me entrega, jamais, a paz. As palavras não significam nada. O texto é apenas uma carga - um potencial de explosão - uma bomba-relógio armada pelo relojoeiro automático. A pena que uso pra escrever é o próprio ferrão, e as palavras são toxinas, filhas da catástrofe e da bestialidade mítica. A função do texto é fazer os anjos chorarem.

Falo pros envenenados. Falo para os embriagados com o licor da aberrância. Falo que o veneno, ministrado sob mais a cuidadosa arte das doses, é na verdade uma cura - uma cura para a doença que aflige a humanidade há alguns milhares de anos. O que está em jogo é a vida - aquela que vale a pena ser vidida e aquela que é desperdiçada, a que é pensada e a que é imaginada e no entanto, nunca se reduz a nada disso.

Mr. Six às 15:44

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Sábado, Agosto 14, 2010

Siberian Breaks

Um aprendizado sereno - uma angústia que vai e vem como maré - a clausura, como porcos em gaiolas de antibióticos, o tédio e tudo aquilo que deseja não sê-lo, e também tudo aquilo que deseja me manter em minha dimensão atual - petit arcontes do mundo falso do eu. A festa, as Pequenas e as Grandes. O que tiro disso, de novo e de novo, é que não há nenhuma resposta que possa ser encontrada na vida, na que vivo e na que eu idealizo, pois viver e deixar de viver são soluções imaginárias. E ainda assim, e acima de tudo, continua ser preciso aprender a viver. A existência na Casa Somática é um jogo dinâmico de forças - por trás e pra além da política, ali onde se confrontam a rotina e a Maravilha; talvez seja característica de um povo de montanhas, mas deixados quietos nós endurecemos, nos tornamos caras cinzas. Precisamos desesperadamente dos nômades, daqueles que passam aqui e vivem em nossa casa como hóspedes, uma semana, um mês ou seis, pois embora aparentemente nós estejamos fazendo um favor (oferecendo hospedagem) na verdade somos os que mais ganham, ou melhor, todos ganham em demasia, tornando uma comparação estritamente quantitativa bobagem, pois há acima de tudo um efeito de QUALIDADE - o que os nômades nos trazem é a Graça, também conhecida pelo nome de PRESENTE¹. Pois a rotina não é nada mais do que a imposição brutal do passado e do futuro sobre o presente, sua dileração nas mãos ávidas desses fantasmas. E o nômade, quando está em viagem, pode experimentar a vida como Encontros - como uma sucessão de singularidades - caminhando dessa forma sobre o CORPO próprio da vida, sua única realidade. E com os nômades eu aprendi o segredo do presentear - uma mnemotécnica de gravação corporal, mas também uma técnica de anamnese, de desapego. Do que se dá é preciso desapegar - abrir as mãos, mesmo, e deixar a energia fluir - para que você transforme o corpo do outro, lhe forneça um pouco de sua identidade - e a troca, em sua natureza própria de fluxo, reflui transformando você também. E de repente a pessoa que passou é agora um pouco de você, e você é um pouco da outra pessoa, e nenhum é igual ao que era. Antes de sair o Mogli passou em meu quarto e me acordou com beijos no rosto, em seguida me estendendo um maço de tarot pesadamente desfalcado, "Tira uma carta" - e me saiu "A Lua", um sorriso brotando espontâneo em meu rosto, "Eu já sabia". E em seguida caí em um semi-sono onde ouvia as pessoas se deslocando lá fora, e eu senti uma pontada de melancolia pois a Natália tinha dito que passaria em meu quarto também, antes de partir em viagem, e eu sonhava ou raciocinava que já deviam ter saído todos. E tudo aquilo com o que me deparei durante a semana voltou à tona, o grito faltoso de desejo não-correspondido mas também a saciedade do desejo correspondido, a auto-imagem em jogo num xadrez viciado em me conduzir à derrota, o recente aprendizado de que enquanto estou envolvido no placar de pontos do jogo sexual da sociedade lá fora, eu perco precisamente o Presente, a única realidade do encontro, e o potencial de cada momento para mudar a vida, e também a triste conclusão de que eu poderia ser outra pessoa, um ser crepitante como o Fogo, e que contudo eu sou assim ar, aéreo, ideático, descorporificado, evanescente. E enquanto tudo isso vinha à tona, no meio-espaço entre sonho e despertar, a porta se abriu e ela entrou e me cobriu de beijos, e eu sorri e ela abriu aquele sorriso lindo, e eu tive certeza de que ela voltava, pois a pedra dela ficou aqui, como um presente involuntário. E agora eu sinto o refluxo, a casa vazia que me entristece mas me devolve a potência de me centrar, de me sentir, e de escolher. "A Lua" pois de fato é necessário construir novamente essa casa em meu espírito, na verdade é necessário construir novamente o meu espírito, pois o chão que me permitiu caminhar até aqui está suavemente ruindo - e a Erica se muda de casa, e eu e a Katia terminamos e eu ainda estou aprendendo como viver com ela e amá-la dentro dos planos próprios ao amor, o que implica em reconhecer e lidar com todas as dimensões da relação outras que não a do amor sem cair em totalizações. E com a Érica saindo eu perco novamente o manancial de paixão do qual um espírito como o meu necessita para queimar, para ter um corpo extático. A Lua - este refluxo emocional, deixando visível uma planice sombria onde todas as transformações são possível, onde o Sol não brilha pois o Reino está no caminho, esse território desprovido de razão e sentido, mas fonte transbordante de sentidos diversos, lago primordial de onde a vida lança sua teia, A Lua, e ao fundo as montanhas de uma consciência ainda inatingível. Eu aprendi a amar esta carta porque sei que nela as metamorfoses mais profundas são possíveis, conquanto venham a ser dolorosas. De fato eu não sei para onde estou indo, nem porque; apenas farejo que o aprendizado que procuro está na estrada, no próprio nomadismo. E estou aqui a inspirar antes de um Grande Salto - dessa vez sem meta final nem objetivos - apenas me desgrudar da teia do cotidiano e me lançar ao Encontro, confiante das Forças Maravilhosas da Noite. Mas novamente, e de novo, viver e deixar de viver são soluções imaginárias. Posso me tornar uma pessoa melhor, posso aprender mais coisas e desenhar melhores teorias e construir melhores objetos de arte, e fazer um grande sexo, e isso tudo vale a pena, mas de qualquer forma jamais vai me levar até lá, pois melhor e pior são soluções imaginárias. E portanto eu decidi - o que é apenas metade do serviço - que vai ser impossível, ABSOLUTAMENTE impossível, viver mais muitos anos e ainda assim perder a oportunidade de realizar o salto definitivo, de empreender a Grande Obra - pois é óbvio que é daí que brilha a mesma Luz que me fascinou sempre na Arte, no Delírio, no Amor - pois é óbvio que toda a Luz que eu conheci é senão a luz da Estrela, da qual o nosso Sol é um caso particular, e portanto ainda relativo, a luz prateada das estrelas. Apenas reflito, então, em quem vou trazer comigo, porque é uma oportunidade boa demais pra se aproveitar sozinho, mas lidar com os outros me projeta novamente na outra esfera, no mundano, no relativo, como uma onda que vai e volta e quebra e reflui, nos ritmos que lhe são próprios.

¹Tem um texto do Bey falando sobre isso que exprime melhor do que eu poderia fazer: Superando o Turismo

Mr. Six às 23:17

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Quarta-feira, Junho 23, 2010

Song against the fold

Parte 2 - Para libertar as Forças Maravilhosas da Noite

O erro é pensar que há um segredo, quando na verdade são dois segredos. São necessários dois para constituir um encontro, e o encontro é a única realidade, o resto todo é fantasma.
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O paradoxo do surrealismo: Por um lado, empenhado em destruir a arte burguesa, em destruir acima de tudo o artista, o autor, através de um profundo adormecimento da consciência usual, abrindo caminho pro automático, pro murmúrio da inspiração, pro manancial infinito de Maravilha escondido no lado avesso da realidade, conjurando uma arte proletária para a existência, tornando a arte acessível para toda a humanidade. Todos somos capazes de sonhar; imaginar o Mito é um patrimônio irremovível de toda comunitariedade. E toda comunitariedade é, por definição, contracultural. "Os escritores surrealistas (...) especificavam que, para eles, não tem lugar em um regime capitalista a defesa e a manutenção da cultura. Esta cultura, diziam eles, não nos interessa senão no seu devir, e ese mesmo devir necessita antes de mais nada da transformação da sociedade pela Revolução proletária"(1). A "cultura" burguesa é civilizatória, estatal, pois busca antes de tudo congelar um certo estado das coisas, preservar um "patrimônio", enquanto simultaneamente esvazia a sociedade de toda vitalidade. A "cultura" burguesa está sempre contra o corpo, está sempre em busca de erigir um ideal transcendente (portanto incorpóreo) de belo, de educado, de - enfim - civilizado, em contraposição às forças caósmicas da barbárie, em contraposição ao poder transformador do encontro. Por isso toda comunitariedade é contracultural - pois a comunitariedade é a mãe da invenção. O paradoxo está em, por outro lado, Breton clamar pela "OCULTAÇÃO PROFUNDA E VERDADEIRA DO SURREALISMO"(2), assim em caixa alta, bradando "Abaixo os que queriam distribuir o pão maldito aos passarinhos."(2) "A aprovação do público deve ser evitada acima de tudo. É absolutamente necessário impedir o público de entrar, se quisermos evitar a confusão. Acredito que é preciso mantê-lo exasperado à porta, através de um sistema de desafios e provocações."(2) Para manter seu caráter radical, o surrealismo precisa acima de tudo evitar a banalidade das categorias, e ao fazê-lo, demonstra sua ascendência Nitzscheana, sua anarquia coroada. Para ser verdadeiramente de todos, é inevitável passar pelas minorias, pois ninguém é a maioria. Não há um homem sequer na terra que seja um homem vitruviano, não há nenhum caso que seja verdadeiramente universal, cada caso é um encontro singular e irrepetível. O não-espaço do encontro: esse “entre as coisas [que] não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio”(3)
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Por eu não ter tido uma socialização comum na minha adolescente (nerd solitário que eu era), mantive-me até bem tarde particulamente cego pras sutilezas e nuances da dança de aproximação e afastamento das pessoas. No processo que se seguiu, de aprendizado rápido e forçoso da arte de viver, assisti com curiosidade a capacidade das pessoas de capturar pequenos sinais e amarrá-los em uma trama de significado - "era isso e não aquilo que ele queria", "ela estava te dando idéia", etc. Até que um dia caiu a ficha de que todos eram tão incapazes quanto eu de capturar sinais sutis; a diferença é que não percebiam isso. Uma mesma situação, vivenciada por várias pessoas, desencadeava toda uma gama divergente de interpretações. E de alguma forma, apesar de ninguém se entender e todos acharem que se entendiam, a vida continuava, e as pessoas se afetavam umas às outras, e se uniam e se separavam. No que concluí que na verdade, a vida social é uma sequência muito grande de mal entendidos, e está aí a sua própria vivacidade, seu próprio poder de sempre se modificar. No coração de todo encontro há uma disjunção, um desencontro, que o torna singular, e que o amarra aos outros encontros que inevitávelmente acontecem.
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Quando tirei uma carta de tarot para esse ano, consegui "Os Amantes". Esta carta corresponde a um dos dois grandes mistérios dos quais nos falam os esoteristas; só pode ser entendida quando pensada lado a lado com uma carta que lhe serve de contraparte - "Arte". Juntas, "compõem a máxima alquímica abrangente: Solve et coagula"(4), análise e síntese. "Ora, o que aparecem à medida que essas experimentações se desenrolam, é que um único nome nunca basta. São necessários dois. Por quê? Porque o Ser deve se dizer em um único sentido, por um lado em relação à unidade de sua potência, por outro lado em relação à multiplicidade dos simulacros divergentes que essa potência atualiza em si mesma. (...) Para dizer que há apenas um único sentido [univocidade], são necessários dois nomes." (5) Seria impossível entender o encontro em sua univocidade se ele não fosse também, inextricavelmente, desencontro. E está aí o mistério dos Amantes, a possibilidade de que dos muitos se façam um, se encontrem, sem que deixem com isso de ser muitos, sem com isso deixar de ser desencontro. Ao começo de janeiro, logo após eu ter me mudado de casa, achei que esta carta fosse se referir à minha relação com a casa, à minha entrega ao cotidiano - com a própria proposta de viver autogestionariamente: produzir um consenso partindo das diferenças entre as pessoas. Agora eu percebo que é isso, mas é muito mais - o mistério dos Amantes se coloca para mim em quase todas as esferas de minha vida. É só agora que percebo que o surrealismo mesmo esteve, desde sua questão inicial - a do automatismo - envolvido na exploração deste mistério. "A carta chamada Os Amantes, cujo título secreto é Os Filhos da Voz, o Oráculo dos Poderosos Deuses, conduz do número 3 ao número 6. O número 6 é a personalidade humana de um homem; o número 3, sua intuição espiritual. Portanto, é natural e significativo que a influência do 3 sobre o 6 seja aquela da voz da intuição ou da inspiração." (4) O aconchegante murmúrio silencioso que é o pano de fundo da consciência.
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Com todas as coisas Maravilhosas, a Chave me foi entregue sem alarde - quase de passagem, quase jogada ao chão por sua obviedade. Há dois tipos de noites mágicas possíveis - há as noites de exaltação, de extroversão, de explosão coletiva (os meus amigos hão de entender do que falo se pensarem no que chamamos de primavera do James), enfim, as noites atravessadas pela festa propriamente dita, não a festa que é marcada, mas a festa que é vivida no corpo (o que não impede, claro, que ela seja marcada, mas é uma diferença da ordem da do menu e da refeição). E há também as noites íntimas e silenciosas, as noites das conversas francas entre amigos em frente a uma fogueira, as noites do aconchego e de calma troca de afetos. E não se pode ter uma sem que se tenha as outras, como é da natureza do corpo que empregue o inspirar para expirar, e o expirar para o inspirar, como é da natureza do corpo que se durma pra que se possa acordar, e que se acorde para que se possa dormir. E se as noites de extroversão me trouxeram a questão, "qual é a chave capaz de destrancar as Forças Maravilhosas da noite?", foi uma noite de introversão que me deu a resposta. Deparada com minha questão, a Erica constatou "Mas essa é também uma noite mágica". O Alex então me deu a chave. "É muito simples! É só se entregar. A questão está toda na entrega".
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"É ISSO", me disse o Lobo, aqui e ali, quando era questão de sê-lo. "É ISSO", me disse ontem a Raposa (agora que abandonei o título vulpino e me consagrei, acima de tudo, Felino). A semelhança entre as situações foi tocante, e me leva a pensar que eu tenho, afinal, algo a adicionar pra aqueles que seguem buscando como eu. Quando ISSO acontece, não é possível agarrá-lo, não é possível prendê-lo, não é possível definí-lo ou conservá-lo; é possível apenas viver. E é precisamente ISSO que constitui o Maravilhoso em sua face extrovertida. Mas é possível também olhar do outro lado, a partir do aspecto lento e silencioso da Maravilha, e ali acontece o isolamento necessário pra que se possa apreender a Maravilha sem se confundir com ela. "É quando ela dorme que ela me pertence; eu entro em seus sonhos como um ladrão e perco-a verdadeiramente como quem perde uma coroa. Sou desapossado das raízes do ouro, decerto, mas tenho na mão os fios da tempestade e conservo os sinetes de cera do crime." (6) "É preciso pensar 'juntas' a univocidade do Ser e a equivocidade dos entes (a segunda sendo apenas a produção imanente da primeira), sem a mediação dos gêneros e das espécies, dos tipos ou emblemas, em suma: sem categorias, sem generalidades. (...) fazer de modo que a aparente travessia de uma analítica que joga ora com a face unívoca do ser (atividade), ora com a do múltiplo equívoco dos entes (passividade), nunca seja categorial. Nunca distribuir ou dividir o ser segundo essas duas vias. Nunca perder de vista que, se, como demonstramos, sempre são necessários dois nomes para fazer justiça à univocidade, esses dois nomes não operam nenhuma divisão ontológica."(5). Afinal, "Viver e deixar de viver são soluções imaginárias. A existência está em outro lugar." (7)
*
A dinâmica do desejo humano é, fundamentalmente, uma economia da abundância. Quanto mais energia eu entrego, quanto mais eu coloco para circular, mas energia eu recebo. "O que eu dou, eu dou a mim mesmo. O que eu não dou, eu tiro de mim mesmo." (8) Tão distinta do desejo faltoso do capitalismo, onde quanto mais eu dou, menos eu tenho! Tive crises de avareza morando aqui na casa; dificuldade de me desprender de minha privacidade, de minhas posses, sensação de estar sendo constantemente ameaçado e roubado pelo coletivo. A Kátia identificou, em mim, uma problemática subjacente a todas as outras, a minha avareza de vida - disfarçada como "individualismo" - o esforço constante de reter a minha vida em mim, mantê-la, cristalizá-la, acumulá-la. Mas a vida, em sua natureza própria de mudança perpétua, não aceita ser acumulada, e se perde na mesma medida em que se congela, e se amplifica na mesma medida em que circula. No amor - é a mesma coisa; quanto mais busco reter o amor dos outros por mim, conservá-lo, mais eu minto a mim e aos outros, abafando sua trêmula chama. O ciúmes é fundamentalmente anti-amor, filho da insegurança e da posse, sob o signo da Falta e da escassez do outro. É preciso deixar o amor ir e vir, dormir e fluir, conforme seus próprios planos internos, e como consequência, ele será sempre um tanto a mais do que o necessário, deliciosamente desnecessário. É por isso que o amor passa sempre ao largo do namoro, o amor é a própria instância primeira da relação, é a própria força de entrega, e o namoro? Não há ninguém que verdadeiramente namore, por definição, uma vez que o namoro é uma abstração com a vã pretensão de cristalizar o amor, definir seus limites, cercear suas forças. É impossível namorar, mas é possível usar o namoro, esta palavra, como uma ferramenta de dominação e submissão, é possível atar-se a ela como um fardo e arrastar seu peso por aí. Os amantes não são namorados, são acima de tudo amorados, e o amor apenas - amora.
*
"I can actually see the machinery and wire connecting and separating everything since it all began... This is how he sees all the time, every day. Like it's all just us, in here, together. And we're all we've got." (8)

(1) André Breton - Do tempo em que os surrealistas tinham razão (1932)
(2) André Breton - Segundo Manifesto do Surrealismo (1930)
(3) Deleuze e Guattari - Mil Platôs vol. 4 (1997)
(4) Aleister Crowley - O Livro de Thoth (1944)
(5) Alain Badiou - Deleuze, o clamor do ser (xxxx)
(6) André Breton - Peixe Solúvel (1924)
(7) André Breton - [Primeiro] Manifesto do Surrealismo (1924)
(8) Alejandro Jodorowsky - A Conversation with Alejandro Jodorowsky (extra do filme El Topo)
(9) Fala Lex Luthor, numa epifania induzida em si mesma por ter inoculado um elixir que lhe concedeu por 24h os poderes do Superman. Grant Morrison - All Star Superman (2006)

Mr. Six às 13:44

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Sábado, Maio 22, 2010

Mundo Subterrâneo

Tempestades internas - não sei de nada. Às vezes, parece que o buraco que me separa da Vida como vale a pena ser vivida é infindável. Às vezes, parece que nunca vou aprender a viver. Estou cansado de sublimações, substituições, prazeres compensatórios. De ter de me contentar com esses copos meio vazios. Não sei se o problema é comigo (se sou eu que me coloco metas inalcançáveis pra viver) ou com o mundo (um mundo que sabota seu próprio potencial de explosão). A sensação que eu tenho é que está ao meu alcance uma felicidade serena (se eu desistir da urgência por Tudo o Mais), mas que eu estarei perdendo precisamente o que importa (a Orgia). Estado de tédio tenso onde há muito a ser criado, mas os meios de realização simplesmente inexistem. Ou eu não sei encontrá-los. Ou eu não sei aproveitá-los. Mas fica assim o Tudo mais travado na garganta, sem saber pra onde ir. Aí o desejo de me dopar. Tenho certeza de que o que me importa é meu prazer, meu bem estar, que é pra isso que essa máquina pensante que tenho na cabeça serve: repetir o prazer, afastar da dor, varando o tempo e o espaço conforme os voos da imaginação e da memória permitem. Tenho certeza que o melhor que faço (agora) é descarregar essa tensão (porque irresolvível, porque estou prensado contra o muro-Realidade), mas ao mesmo tempo, que saco, outra compensação! Mais um gozo, nunca uma verdadeira Fruição, nunca Deleite, nunca o Jardim das Delícias. O Brian me questiona sobre ficar lendo dos situacionistas, dos zapatistas, dos hippies, de 68, dos situacionistas, dos surrealistas, dos dadaístas (ele não sabe que leio todos eles, mas a crítica é extensível), ao invés de dedicar minhas energias a viver agora. É. Eu acho que sim, é verdade. Meu vício intelectual tem servido pra redirigir minhas energias à contemplação, nunca repercutindo em nada, uma eterna preparação pra Grande Festa Revolucionária. Leio e leio e leio movido pela intuição de que vou descobrir algo, uma CHAVE, pra DESTRANCAR AS FORÇAS MARAVILHOSAS DA NOITE. De duas uma, ou esse papo de forças maravilhosas é mais uma desculpa que uso pra não curtir o aqui-agora (de alguma forma é isso), ou é precisamente o que importa, algo pro qual não temos palavras pra descrever, algo que quer desesperadamente Nascer nesse mundo. Eu - nasci marcado com um selo de luz negra, um anjo me carimbou com seu cetro, "não há nada que exista que vá te satisfazer, e por isso, terá de correr atrás do que não existe como um desesperado". O que mais me dá tesão na vida é ver acontecer o que todos achavam impossível. O que mais me dá tesão é a experimentação, especialmente aquela que é feita com corpo, pele, suor, secreções, o que mais me dá tesão é a expansão coletiva, a explosão em grupo, o Orgíaco. Onde estiverem as Forças Maravilhosas da Noite, estará o Orgíaco, sem sombra de dúvida. Eu não tenho como trazer o Outro Lado pra cá por mim mesmo, não dá pra fazer sozinho (ou dá? é preciso um profundíssimo adormecimento do sujeito - é preciso o SONHO - pra que o Maravilhoso emerja nos coletivos que há em mim). Mas enquanto estou acordado, a única forma que tenho de fazer emergir o sonho é encontrar a Chave Secreta, aquela que abre a todas as almas, aquela que quebra todos os corações, produzir a chave secreta em coletivo, e destrancar tudo aquilo que desesperadamente deseja existir. "VIVER E DEIXAR DE VIVER É QUE SÃO SOLUÇÕES IMAGINÁRIAS. A EXISTÊNCIA ESTÁ EM OUTRO LUGAR." (Breton)

Mr. Six às 23:36

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Quarta-feira, Maio 05, 2010

City Kids - Pink Fairies

É preciso um mínimo de rigor se eu quero levar essa empreitada até o final. Há uma pergunta sendo feita, e uma resposta sendo procurada. Há uma razão para que essa busca seja feita e há uma prática através do qual ela se realiza. Não se trata do passado, em absoluto; trata-se de um problema que se encontra eternamente presente. Há, contudo, uma busca pelas memórias - resultando na construção de um arquivo peculiar de recordações (este blog). Há uma fuga das categorias, uma seta atirada para além do senso comum, além de tudo que é esperado, além das respostas ideológicas. E a expectativa de que no final, se produzam efeitos de sentido, de que haja sentido.

A pergunta que está sendo sempre feita é - quais as condições, em que circuitos de trocas produzia-se a minha amizade com o Danilo? Não se trata de encontrar causas, remeter a uma essência - caso contrário recaímos nas categorias ("nossas semelhanças nos aproximaram; nossas diferenças nos fizeram crescer". Não há nada além de coisas assim a se descobrir no fim dessa linha de perguntas) Trata-se então de entender uma política, uma série de ações repetidas de intercâmbio entre eu e ele - intercâmbio de signos, de movimentos, de olhares e toques, de cores e sons - que foi capaz de operar nos territórios que habitávamos então e produzir alguma coisa de especial.

No que se coloca a questão - o que é esse algo de especial? Sei que me foi importante enquanto aconteceu, e sei que é importante hoje, na medida em que esse algo falta. É precisamente porque falta que me sinto mal, e é em busca de sentir-me bem que busco aprender com o vivido - eis as elementares razões da busca, eis sua urgência biológica e sua presença. Sei que não foi só com ele, ou nele, que este algo especial surgiu - ou seja, que a questão atravessa a mim e ao Danilo, atravessa as nossas memórias enquanto caso pertinente, mas seu escopo rapidamente deixa toda especificidade de lado, tornando-se uma questão de vida, uma questão de ser, uma questão metafísica.

No que se descobre algo - pois era precisamente essa pergunta que nos colocávamos um ao outro, era essa questão que nos movia, conscientes dela ou não (em grande parte do tempo, não). Essa busca é a mesma busca daquele momento, conquanto dobrada sobre o passado, conquanto duplicada sobre si mesma. É a continuação de minha amizade com o Danilo que me foi possível no afastamento e na ruptura que se seguiram. É o pedaço desse Nós que pude carregar comigo pros territórios que hoje habito, a noção de que há uma vida além desta que vivo (a cada momento), de que portamos o potencial de nos fazer mais, e de que é necessário uma batalha pra que isso aconteça, é preciso empunhar armas, como em qualquer política.

Era pois uma batalha - a minha amizade com o Danilo envolvia sua própria dose de marcialidade. A acusação, auto-imposta em grande parte das vezes, de que nossa relação era narcísica - portanto especular, portanto falsa - encontra aí sua mais justa réplica. Pois ela envolvia sua justa dose de crueldade. Uma inocente crueldade, eu diria - aquela que é feita sem desejo ativo de perceber dor, sem o gozo especular da dor alheia. Para que entendamos esta crueldade é preciso entender também que a relação nunca foi simétrica - havia uma diferença de perspectiva, uma disjunção na espacialidade - de modo que nossas ações partiam em sentidos bem distintos. O Danilo vivia - as relações, as dores, as descobertas e decepções - lembro-me do prazer e dor na relação com a Ju, a angústia com sua proposta de ida ao nordeste, a tempestade do ciúmes quando ela ficou com outra pessoa. Ele falava de dentro da vida, de dentro dos territórios, e ali exibia sua argúcia analítica, tecia diagnósticos, comunicava-os com uma teoria; e ali experienciava na pele tudo aquilo que eu não conseguia viver.

Eu falava de Outro Lado - do Lado de Fora. Eu falava da posição de um intelectual removido do mundo; minhas palavras tinham a agudeza crítica das alturas. Só no frio gélido das alturas pode-se perceber a arbitrariedade e o ridículo de todos os territórios, de todos os códigos! Eu falava como alguém que sofria com esse gelo - pois sabia-me também ridículo e arbitrário. Eu desejava acima de tudo o calor da vida - de uma forma dissimulada, ressentida, hipotérmica. Como conciliar a percebção do arbitrário e do ridículo com o próprio desejo de calor? - era a pergunta mais urgente em mim. E então, com o Danilo, eu pude sentir o calor da vida - e com ele obtive a mais clara análise que pode ser feito enquanto se vive, o mais claro diagnóstico da vida. Juntos formávamos um cirurgião - o Danilo a explorar as entranhas do viver para dele extrair um diagnóstico, e eu a cortar com a navalha as partes doentes e tentar removê-las.

Esse circuito dependia de três coisas. Primeiro, que eu me mantivesse a olhar de fora dos territórios; segundo, que ele confiasse em meus cortes, que ele confiasse que minha crítica não viesse de nenhum território em que habito; terceiro, que eu confiasse que ele ia confiar em mim, de modo que eu pudesse me satisfazer em, ao invés de viver, viver através dele. Pois havia de minha parte uma compensação doentia, uma busca indireta do calor dos territórios sem precisar me localizar neles jamais. Era preciso que ele se mantivesse entre eu e a vida. Para que eu pudesse, através dele, aprender a viver, sem precisar primeiramente viver para fazê-lo.

A palavra "doentia", nessa questão, possui suas próprias conotações. Doentia, mas também desejosa de saúde - apenas a própria força da vida que busca a si mesma, busca viver. A doença foi o que, de antemão, me atirou pras montanhas - refugiei-me porque era fraco, FISICAMENTE fraco (quando se trata da adolescência). Ressentido com o mundo. A minha adolescência me marcou através da mais eficaz mnemotécnica, a aplicação sistemática de dor. E a memória que se gravou em mim é: não pertence ao nosso mundo. Cuidei-me, então, de procurar um outro mundo que não o do corpo aonde eu pudesse viver. Encontrei-o nas alturas da mente, e por lá fiquei, até que o frio começasse a me matar. Então o impulso de vida que havia em mim tomou uma nova atitude - e me pôs a correr atrás do calor novamente. Fiquei ali a meio caminho - sem ter a coragem de pisar no solo, mas sempre a sair do mundo ártico das idéias. O Danilo me permitiu de fato descer, sem que eu precisasse deparar-me com a paisagem imediata do viver.

Seu viver e seu diagnóstico, minha crítica e meu viver-indireto - produziam o sentido. O que buscávamos era uma uma improbabilidade tautológica - produzir um território que não é um território! Atingir o outro lado, oposto às alturas mas também oposto à própria superfície do viver, uma vida ao reverso. Em suma, um absurdo. Mas como diz Cortazar - é preciso produzir um absurdo, um gigantesco absurdo, de forma a combater os medíocres absurdos da vida. O sentido, Deleuzianamente, se produzia na própria ausência de sentido, no nonsense dessa improbabilidade. De modo que não era necessário produzir um território que não é um território, apenas tentar fazê-lo, e viver essa tentativa, de modo a alcançar os limites disso de que se chama de vida.

É claro que isso não é tudo. Há um outro elemento que entra aí em jogo, e faz com que o sistema funcione. Esse outro elemento é o próprio Outro Lado - o próprio sentido - a própria Maravilha. Ela tinha de ser buscada na própria vida, nos próprios territórios, mas tinha de apontar para fora - tinha de ter uma face voltada para dentro, mas uma face voltada pra sabe-se lá aonde. Ou seja, precisávamos de um devir - e por nossas contingências, fomos encontrá-lo nas mulheres. Eu e Danilo entravamos no nosso próprio devir-mulher, com a ajuda delas. Ambos se apaixonavam. O papel do Danilo era se aproximar delas, pegá-las, namorá-las, e receber seu afeto. Eu me mantinha próximo a essa energia, a recebia dele, aprendia com ela (o impulso de vida que havia em mim ainda buscava alguma forma de não precisar, dessa forma, do Danilo). A conexão entre eu e ele era fortuita pra ele pois, sem mim, sem minha crítica, ele poderia ficar por demais próximo ao território, acreditar nele, envolver-se nele, tornar-se apenas um namoradinho e uma namoradinha, um pequeno drama burguês - e perder precisamente o Outro Lado. A busca do território que não é um território.

A questão se tornava, então, macro-política - quando passava do dois para o três. Era preciso fazer uma crítica do território do casamento, impedí-lo de se estabelecer por completo, encontrar nesse território a mulher-fada que vive no limite com o Lado de Fora. Era necessária uma crítica da família burguesa, uma crítica da psicanálise, uma crítica de tudo que busca submeter as forças caósmicas loucas do lado de fora aos meros Papais e Mamães. Uma crítica que, no final, se extenderia ao próprio capitalismo (como se extendeu), tinha de se extender pois se se interrompesse, estaria perdida a guerra contra o território, e o Lado de Fora estaria perdido.

A falência do sistema teve a ver com a Nádia - e vejo de início dois motivos para que isso acontecesse. Primeiro, porque me movi para entrar no território, e entrei - ao lado dele, e com ele. Segundo, porque minha agudez crítica se tornou, então, comprometida às vistas dele - ele parou de confiar em minha visão crítica. Minha reação, uma vez capturado no território, engastado ao lado do Danilo mas mas sem sua confiança - e sobretudo, sem a Nádia - foi me virar e tentar destruir o território de dentro pra fora. Eu estava finalmente em um território, ou seja, podia-se dizer que eu estava finalmente vivendo, vivendo esse fracasso que foi me apaixonar pela Nádia, me apaixonar novamente depois de tanto tempo. Foi por isso que essa dor e esse fracasso foram doces. Foi por isso que consegui me sentir feliz e triste ao mesmo tempo, um triste júbilo sereno. Eu sentia finalmente o calor do território, mas perdia o Outro Lado ao perder a Nádia - e ele também. Foi uma vitória dolorosa: meu impulso de vida me conduziu de novo à vida, e à experiência direta, mas perdi a ponte com o Outro Lado.

Era um jogo que ou jogávamos juntos ou perdíamos juntos - e perdemos juntos. Mas a vida continuou, e as vitórias se seguiram. Consegui me aprofundar nessa coisa de vida um montão, até um ponto onde comecei sozinho a descobrir os buracos pro Lado de Fora. Renunciei à visão das alturas - quando renunciei a assistir a vida através de outro. Me engastei e desengastei de vários territórios sozinho. O Danilo, também, encontrou por si mesmo o Lado de Fora da Nádia - encontrou a Fada de sua própria forma. E perdeu-a, também, e se engastou em territórios secos, e também saiu deles. E eu mantenho essa história viva porque, quando esqueço do Outro Lado, esqueço de seu caminho, quando me vejo perdido em um deserto sem placas de orientação, eu me viro pra nossa amizade, pra essa energia louca e especial que nós vivemos juntos, e busco por algo que possa me ajudar a fazer sentido Agora. E o jogo continua.

Mr. Six às 20:32

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Sexta-feira, Abril 16, 2010

Song against the fold
1 - A Faísca e o Relâmpago

A aventura beat de se lançar na estrada em busca de alguma coisa que só pode ser referida no genérico - ISSO, AQUILO. Era muito claro do que se tratava esse ISSO e AQUILO, quer dizer, qualquer um que já tenha vivido um pouquinho é capaz de sentir ressoar. Mas não quer dizer que se saiba como falar DISSO, que se tenha consciência de como ISSO se processa. Ainda mais porque ISSO pode ser encontrado em lugares tão distintos! É como a pedra filosofal dos alquimistas - crianças brincam com ela na rua, pisa-se nela todos os dias, come-se dela e vive-se dela, e contudo continuam todos ignorantes a seu respeito. E aquele bando de intelectuais passarejava ao redor de Dean Moriary, quer dizer, de Neal cassady, bebendo avidamente dessa coisa que ele era capaz de farejar, de seguir, de escavar e de revelar o brilho, essa coisa que alimentava o poder de escrita beat, enquanto em troca o ensinavam a escrever. Mas não era só Neal, era também os mexicanos, os indígenas, todos esses coletivos de terceiro mundo que compunham e sustentavam a sociedade branca de classe média americana. Esses povos tinham algo que tinha se perdido na sociedade americana mainstream. Eu não concordo quando retratam os beats como um movimento basicamente apolítico. Para além dos flertes aleatórios e desinteressantes com o marxismo, os beats viviam uma política num nível muito mais superficial e imediato, uma política do cotidiano, "micro" se quiserem dizer assim. Imediata enquanto ausente de mediação, de representação, e é isso que distingue fundamentalmente a micropolítica da macropolítica: a macro sempre tem alguma coisa entre você e a história, um representante, um líder, uma nação, uma ideologia, um partido. Enquanto a micro é a ebulição do SER imediato na história, a história vivida ao único nível real: o cotidiano.

Os situacionistas, teóricos/artistas marxistas de vanguarda da década 60, entenderam isso como ninguém. Falo mais do que tudo de Raoul Vaneigem, bem porque não li quase nada de Debord. A sociedade americana mainstrem tinha perdido, ou melhor, ativamente destruído, precisamente a experiência vivida imediata - o real. Esse ataque empreendido contra o real exerce uma função primordial no mecanismo da sociedade capitalista, a saber, sua recuperação e inserção dentro de uma determinada ordem das coisas, buscando, através desse movimento, impedir que o potencial revolucionário inerente ao presente e à vida transborde e desmonte os mecanismos de auto-sacrifício envolvidos no trabalho (e na submissão à hierarquia - o patrão), os mecanismos de mistificação presentes no consumo (e na submissão ao trabalho - pra consumir preciso de dinheiro) e os mecanismos de poder presentes na hierarquia (e na submissão ao consumo - sou superior porque gasto mais). Esse processo de recuperação do viver imediato acontece através de sua captura em categorias (sempre binárias, do tipo Ou/Ou) e dos papéis espetaculares (ou formas repetidas ao infinido, método através do qual, como mostrou Adorno, se remove sua "aura"). As categorias não são nenhuma novidade capitalista, pelo contrário, estão aí desde que há hierarquia, desde que Platão lançou sua maldição sobre a filosofia ocidental, desde que o ideal passou uma rasteira no real e se colocou como dado primeiro. As categorias são o inimigo fundamental do corpo, porque buscaram removê-lo de sua posição, adotaram-na, e mandaram o corpo pastar nos terrenos fantasmagóricos do Objeto. Eu não sei dizer ainda de como funcionavam os papéis nas sociedades indígenas, pré-hierárquicas; quanto às hierárquicas, ou seja, dotadas de um Estado, de escravos e senhores e de uma apropriação dos meios de produção, os papéis eram parte ativa da mística que marrava os escravos aos senhores, e os senhores a deus. A grande invenção burguesa nesse sentido é a reprodutibilidade técnica, que arregaça com a função feudal dos papéis, mas faz com que eles proliferem ao infinito, imagens e imagens que se viram contra o vivido e buscam adotar sua posição. As categorias, com sua origem hierárquica, ainda conservam um pouco de mística, nem que seja por sua oposição Ou/Ou remeter à possibilidade imaginária de uma síntese, de uma unificação. As categorias ainda estão atadas contratualmente a Deus e Seu Trono Nos Céus. Os papéis se parecem muito mais com a vida cotidiana, com o imediato, por sua neutralidade, por serem não-binários; eles duram muito menos também, pois seu manancial de vida é rapidamente sugado pelo próprio mecanismo que os produziu, pela sua própria disseminação ao infinito. Os papéis penetram em toda a vida cotidiana e se travestem dela, até o ponto em que, sentindo a falta de vida em nós, nos viramos antes de tudo pra eles e dizemos: dê-me de beber! Quero viver! E caçamos papéis novos. Estudante universitário, moço do interior, trabalhador, pai de família, namorado, indie, hippie, punk, responsável, irresponsável. Os papéis não são essas palavras (elas são categorias), e sim as imagens que fluem junto a essas palavras, e inundam o presente com sua multiplicação insignificante e insatisfatória. E nos confundimos com eles.

É preciso haver uma carência de vida pra que haja capitalismo. É preciso escassez, em todos os sentidos. A internet é pra mim um caso interessante, conquanto limitado, do tipo caixa-de-pandora; se veio a nós em meio ao processo de dominação total cibernética, taylorização do universo, ela abriu vastos territórios de potencial abundância (copiabilidade) - ameaçando a própria indústria cultural, mãe e senhora da copiabilidade técnica. Eu acho que no fim era disso que Marx tava tentando falar: o capitalismo possui uma contradição intrinseca; enquanto por um lado se calca na escassez, ele é capaz de produzir uma enorme abundância, material, simbólica e criativa, e a única coisa que impede que ele passe uma rasteira em si mesmo é um processo de mistificação, "alienação", "ideologia". O capitalismo abre de novo as fontes da vida, fechadas por Deus e Seu Trono Nos Céus, fechada pela sociedade de castas feudal, e tem de impedir então que toda essa vida o submerja; e daí o processo de recuperação, onde a vida é sugada e depois vendida de volta como produto.

Toda a contracultura se ocupa, acima de tudo, com a libertação da vida cotidiana, ou seja, a libertação do Presente, e seu potencial criativo, das amarras do passado e do futuro, das imagens que tentam se passar por Presente. Não se trata, com certeza, de renegar o potencial humano de cunhar imagens, e frases, a respeito dos tempos que passaram ou que virão; bem porque o presente possui, em si, o potencial de transbordar como imagens, como frases, de se lançar rumo aos passados ou aos futuros. A questão é que essas frases, e imagens, podem também estar/ser viradas contra o próprio presente, contra sua própria criação - como é o caso dos papéis. Deleuze chama essas formas dobradas de "estratos". Elas são contínuas com o próprio presente, com o próprio ser; chamá-las de "irreais" é parcialmente incorreto. Se você seguir a linha certa, você passa do Ser ao simulacro¹, do Corpo aos seus Estratos, do Viver aos Papéis. Jogar fora os papéis, a dobra, sempre foi uma atividade arriscada. Deleuze enumera uma pá de riscos dessa coisa em um de seus platôs (Como Fazer Para si um Corpo sem Orgãos), desde jogar fora o próprio corpo junto aos estratos, ou fazer os estratos precipitarem-se contra o corpo (os gambés caírem na sua casa e te impedirem de experimentar), até fazer o corpo brotar em um estrato e produzir um câncer totalitário. Essa percepção é importantíssima, e talvez acuse o grande erro ou grande ingenuidade das contraculturas até então, que buscavam resumir a coisa toda em "largue os estratos e é isso aí". Há destinos piores que ser estratificado, como por exemplo tornar-se um trapo humano, viciado, esquizofrênico. Os corpos cancerosos trazem então a percepção de uma diferença sutil e perigosa; elas explicam a razão teórica ou filosófica que levou Heidegger a saudar o nacional-socialismo (descrevendo-o como uma "emergência do Ser na História, ou seja, como um Corpo sem Orgãos) sem perceber a distinção entre o Corpo sem Orgãos e suas variantes cancerosas.

Toda contracultura está ocupada DISSO - e as diversas formas de encontrar ou produzir ISSO. Os beats foram caçá-los em Cassady, ou nas culturas negligenciadas pelo espetáculo; os hippies foram caçá-lo no oriente, e nas viagens alucinógenas; os punks foram caçá-lo na superfície da "atitude" e na ruptura com as mediações envolvidas nos processos produtivos ("faça você mesmo"). Os grunges não sabiam mais o que buscar, perderam a trilha, restando só a sensação de que ISSO faltava. E eis a história de todos nós desde a década de 90. Os surrealistas foram buscar ISSO no inconsciente. Vaneigem retorna várias e várias vezes aos surrealistas, presta-lhes tributo e tenta explicar onde eles falharam. Ou porque tentaram produzir uma nova teoria/arte radical antes de Dada ter sido completamente recuperado; ou porque tentaram colocar o surrealismo a serviço da revolução, do bolchevismo, ao invés de - como critica Artaud - colocar a revolução a serviço do inconsciente. Imagine isso - uma revolução surrealista! Que estranhas quimeras seria possível pôr para andar na rua! Cada um de nós é capaz de se conectar ao SER, ao Eterno Presente, nem que seja através do inconsciente - através de tudo aquilo que está em nós e que foi protegido da representação, da mediação, que invadiu e colonizou nossa subjetividade. O inconsciente ainda é a linha estratégica definitiva, o front que nunca foi ultrapassado - e que talvez nem o possa ser. Cada um de nós ainda é capaz de sonhar, quando desliga nosso ego ocupado de papéis. Cada um de nós ainda é capaz de produzir algo novo, algo loucamente novo, seu próprio Finnegans Wake, nem que seja só quando dormimos. Somos todos surrealistas à noite, por mais que o surrealismo não exista mais (o que talvez seja bom - basta de categorias!). A família, e os burocratas da psicanálise, bem que tentaram colonizar o inconsciente com seus próprios papéis - a família é pra mim basicamente isso, uma empresa de colonização do inconsciente - mas a família é um corpo agonizante desde que seu contrato hierárquico /aristocrático foi rescindido pela carta da constituição democrática. A família está se despedaçando e todos já sentimos o cheiro de morte. Uns brigam pra proteger um pedaço ou outro. Outros se apegam à casca e fingem que nada aconteceu. Eu acho que podemos nos virar bastante bem sem família. Inventar uma socialidade foi sempre o patrimônio irremovível da raça humana.

O inconsciente não tem nada a ver com a família - é simplesmente o corpo próprio da subjetividade, o limite que ela desenha quando em contato com o presente. O inconsciente não significa nada - como poderia, após Dada? - é simplesmente construção, desconstrução, combinação, recombinação, partos e abortos incansáveis. O inconsciente é a terra de ninguém das categorias - ali na rachadura, entre a fantasia representativa/medíocre (porque mediada) do sujeito e a doutrina inflexível do objeto. Os surrealistas desceram seus baldes rumo ao inconsciente, e quando içaram de volta, descobriram que haviam encontrado o próprio Licor da Maravilha. Quando Artaud abandonou os surrealistas, fala Vaneigem, seu erro foi ter abandonado também a política radical. A única proteção contra a recuperação é o acréscimo de mais uma dose de radicalismo. E por radicalismo falo de imediatismo, de recusa ao espetáculo, de recusa à mediação. Mas pensando por outro lado, temos uma pistola apontada pra nossa cara, que nos diz: eis seu papel! Interprete! Desde minha RG, CPF, carteira de trabalho, etc, até os papéis de rebelde, de libertino, de anarquista, whatever. Interprete ou morra!, me diz a voz da autoridade - e eu que não sou burro, danço a dança, finjo ter um papel, jogo com ele - mas sempre conservando o distanciamento característico do jogo, nunca tomando o papel pela vida.

Você me pediu pra explicar o que era a Grande Festa da Vida e eu engasguei. Desde então, estive vivendo mais e mais perto do real a cada dia. A briga foi nervosa, angustiante, desesperada, e cheia de auto-sabotagens; foi mais incômoda do que prazerosa a maior parte do tempo. Mas eu sempre soube, e nunca me deixei enganar, e nem acho que vou, que a fonte de vida JAMAIS vai ser encontrada em uma carreira, em um casamento, no espetáculo, no supermercado. Não há vida no espetáculo, há apenas o tédio dos papéis. Eu tentei explicar a um amigo meu o que era essa sensação, de estar vivendo perto do real. Contei de como esse real estava relacionado a minhas aventuras no mundo prático, no mundo mundano, no mundo culinário, etc. Ele pegou um pedaço e lhe escapou outro, o mais importante, de modo que não entendeu nada. Não há nada de real em um mundo prático por si mesmo. O ponto é que, dadas as contingências que estruturam minha vida, eu só poderia ascender ao real através do prático, porque era aí que eu mais me deixava mediar, era aí que os papéis incidiam sobre mim, me distanciando da comida que adquiro (através da compra), da comida que como (cozinhada por outro, ou por uma fábrica), do dinheiro que ganho (através, acima de tudo, do conforto fácil que eu tinha). Outras pessoas são estratificadas em outros pontos, precisando as vezes precisamente se distanciar do prático, atingir o absolutamente inútil, pra encontrar em si a vida que lhes foi roubada. O prático só se torna real quando é simultaneamente estetizado e politizado. E, ao ser estetizado, só atinge o Corpo quando consegue contornar o risco de ser recuperado pelo espetáculo, ou seja, resiste ao afastamento da Vida através da representação e mediação; e, ao ser politizado, só atinge o Corpo quando consegue contornar o risco de ser recuperado pelas ideologias, ou seja, resiste ao afastamento da vida através da representação ou mediação. A fórmula é a mesma, nos dois casos. E é isto o radicalismo - e é isto a teoria e prática radical - uma simultânea politização e estetização, contra a mediação.

¹não sem encontrar uma rachadura no meio do caminho, mas isso abordamos mais tarde

Mr. Six às 19:52

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Domingo, Dezembro 20, 2009

Moon Gold

Na real. Eu queria ter fechado o blog. Não tenho mais leitores e não estou disposto a correr atrás; pra isso, aliás, planejo abrir outro blog - com um sistema mais atual tipo o blogspot onde eu tenha opções como colocar tags - e onde vou actually FALAR com os leitores sobre temas terceiros. Não apenas discorrer espontaneamente sobre oh-meus-dramas. É. Me descobri muito dramático e sequer estou certo de que quero mudar. Na real - eu acho que ao vivo nem sou tão assim, mas escrevendo eu floreio as coisas meshmo. Acho que é uma tentativa de aumentar retoricamente minha vida de forma que eu me convença que coisas importantes acontecem. Desde que eu larguei a adolescência - ou seja, desde que sofri upgrade do Iago 1.x pro 2.0 - este blog versa sobre os mesmos fucking assuntos. Bate na mesma tecla. Repete o disco até furar o vinil. Uma amiga me deu toque sobre isso via comment uns três anos atrás mas eu continuei do mesmo jeito. Não espero mesmo que, dessa forma, eu vá cativar leitores. Aliás, satisfaço-me que apenas uns poucos seletos leiam aqui, primeiro porque me poupo de gastar saliva com explicação. Segundo porque acho que deve ajudá-los a entender minha loucura (bem, se estão lendo, provavelmente estão interessados). São poucas pessoas e eu não sei se eu fosse elas eu leria aqui. Mas estou sem diário e sem blog. Estou sem escrever sobre minha vida pela primeira vez em 11 anos. Não sei viver assim muito bem. As coisas espalham demais, eu tenho essa necessidade de pegá-las e amarrar em uma narrativa pra que eu possa me situar. O principal sintoma de uma cloud sempre foi eu não conseguir escrever no blog.

Eu tive basicamente duas narrativas no blog. As duas são simetricamente opostas e igualmente monótonas. A primeira foi conduzida pelo "pierrot", pelo Iago chorão gótico de 16 anos. Redescubri há pouco tempo que ele ainda existe - ou subsiste, não sei dizer quão atuante ele é no dia a dia. Mas ele está lá. E o Iago de 16 anos é uma criatura detestável porque é RESSENTIDA. Alguns gostavam - eu soube encontrar quem gostasse. Os amigos todos da época compartilhavam desse ressentimento. Sob certos aspectos, alguns amigos que eu vim a fazer só pelos dias atuais (ou seja, do Iago seguinte) até prefeririam ele. Ao menos se ele não se vestisse de preto e fizesse cara de cemitério. Eu era muito caricato, deuses. Mas enfim: a narrativa que esse Iago fazia era um enorme chororô. Mil formas diferentes de dizer o quanto o mundo é injusto e me machuca. GOSH. Quem me acha dramático hoje em dia devia experimentar ler as coisas de alguns anos atrás. Eu era uma drama queen. SERIOUSLY. Por sorte esse Iago "morreu", ou como digo, sofreu upgrade. Ele precisava mesmo ou ia acabar se matando - não era eficiente nisso de lidar com a vida.

Aí eu fiz upgrade pro Iago 2.0. Que é, com alguns aprimoramentos, o Iago que escreve aqui. Isso rolou basicamente através da energia gerada do encontro com o Danilo, ao lado do suporte da SS e da música do The Pillows. A SS é violentamente anti-drama e isso veio a calhar pra me equilibrar. O Danilo, em sua face EÓLICA (esse adjetivo só faz sentido praqueles que nos conhecem pessoalmente. tá vendo? é por isso que esse blog não tem leitores. hahaha.)... Como eu ia dizendo, o Danilo, em sua face eólica, despertou em mim o desejo de aprender a viver. Ele era tipo eu - o que quer dizer que eu descreveria ele atribuindo qualidades e defeitos similares - mas era extremamente capacitado precisamente naquilo que eu era o mais inepto: mulheres. Acho que era uma relação muito narcísica. Mas tinha uma dose saudável de respeito e admiração, reverência. E as coisas que aprendi com ele redirigiram a minha vida de tal forma que o que sou hoje nasceu desse encontro. O Iago 2.0 basicamente inverteu sua narrativa; ela deixou de ser ressentida e se tornou afirmativa. Afirmação constante de um porvir de transcendência... o anúncio e a espera de um momento onde tudo que eu sempre fui e vivi seria instantaneamente tornado obsoleto. Eu achava que seria de um golpe só: e nem estava tão errado assim... Era de um golpe só, em um salto, que eu poderia escapar de quem eu era, mas esse um salto podia ser encontrado em todos os lugares, em cada pequeno abismo. Sempre o mesmo salto, sempre o mesmo abismo, mas bordas diferentes a todo momento.

E em cada post meu eu enfrentava mais um aspecto de minha vida e refazia o mesmo percurso até achar seu limite, localizar seu abismo, e pular pro outro lado. Eu chamei isso de Caminho Tortuoso: porque esse abismo, e esse salto, nunca era uma rota explícita, e sim o buraco que dividia duas rotas uma da outra.Tratava-se sempre de achar a terceira via, de "fazer diferente", diferente das opções que nos são colocadas pelo pensamento categórico (OU isso OU aquilo). Essa prática era permeada por um problema que se colocava por dois lados: primeiro, eu ainda esperava um grande salto, e media todos os saltos através desse grande salto; segundo, eu demorei a perceber que toda vez que eu saltava, eu só saía de mim por um curto momento, pra depois fazer um "Iago" upgradado na nova margem criando assim a necessidade de um novo pulo. Fazendo isso, eu fui mudando, e fui aprendendo a viver. Mas fui também achando que não estava aprendendo, porque o GRANDE SALTO nunca acontecia. E aí eu acho que a gente pode entender o papel do que eu sempre chamei de "Outro Lado". É simplesmente um nome pra margem na qual pretendo pousar. Eu nunca chegava no Outro Lado porque ele é um limite - o limite do aqui-agora - limite que é postergado toda vez que eu contextualizo um upgrade numa nova margem.

O que quer dizer que Outrora e Outro Lado não eram uma Forma específica. Não dava pra definí-los e dizer "se for assim e assado, é o Outro Lado". O Outro Lado era só um atrator, uma força, uma torrente, que me arrastava pra outra margem. Um mecanismo assignificante que fazia a máquina toda funcionar. A única exceção à regra era o próprio momento de transgressão do abismo - o próprio pulo - onde eu não estava, em uns poucos momentos, nem lá nem cá, de forma que não havia coordenada pra instituir um aqui-agora. No fim, "Aprender a viver" era apenas viver, porque viver é aprender. Ok. Isso é só poesia. Mas o ponto todo, e é um ponto bem óbvio, é que o próprio processo tinha toda a mágica em si mesmo, e não em seus resultados. Nunca houve um paraíso a ser alcançado, mas havia um paraíso a se instalar, a cada salto, sem similaridade nenhuma entre o paraíso de um salto e o paraíso do outro. Cada evento era absolutamente singular, uma entrada do CAOS no continuum karmico. Ok. Ninguém deve ter acompanhado esse texto até agora. Comecei com um diário e fui fazer protofilosofia de novo. Mas vou continuar ainda assim, dadas as premissas do começo do próprio post. A conclusão é que o Outro Lado era a mesma coisa que Lado Nenhum, e só podia ser vivido desse jeito: da transgressão do abismo.

E por isso era necessária a velocidade. Era por isso que eu tinha de ser como uma FLECHA, um VETOR, uma FORÇA: porque senão eu caía no abismo, e que queda! Não acabava nunca. Uma cloud era cair no abismo, e ir caindo, até achar uma borda pra me recontextualizar. Eu entrava em clouds toda vez que eu estagnava, ou seja, perdia a capacidade da VELOCIDADE. Por isso eu não posso cheirar pó jamais: iria me dar o que quero muito facilmente. Eu ia viciar. Certeza. Em todo caso, sempre me criticaram por essa fome de mudança, fome de Outro Lado, mas a real é que eu não tinha muita escolha. Era melhor correr do que afundar na cloud. E eu carreguei o Danilo comigo. Porque ele veio? O que ele queria conquistar? Engraçado que eu nunca perguntei. Eu tinha a sensação de que era a mesma coisa. Mas ele JÁ ERA UM VETOR. Ele já era o que eu queria me tornar. Penso, por exemplo, na velocidade com a qual ele se apaixonava e desapaixonava, o Danilo em sua face eólica. Então, o que ele buscava comigo, em mim, ao meu lado, era alguma outra coisa. E eu descobri que não faço idéia. Contudo, eu sei que o processo surgiu com ele, e dependia dele. No momento em que ele virou de face - ele virou o outro Danilo, aquele que eu não conheço - ele parou de perseguir o Outro Lado que nem um idiota, e eu fiquei lá perdido. Fiquei perdido durante um ano. As forças constituintes do Iago 2.0 se desmontaram; e enquanto ele desenvolveu uma permanência como certa forma constituída, seu fim estava agendado.

Mas ainda sou o mesmo. Outro Iago não se instalou. Provavelmente está em processo, pelo menos desde que comecei a amorar a Kátia. Ela entrou com uma série de forças distintas, MOLECULARIZANTES... Ela entrou pra desmontar todos os grandes conjuntos, todas as categorias que eu cuidadosamente polia. O Grande Salto, a Colombina, os Jogadores e As Cartas... E esse desmonte não é uma coisa ruim, uma ameaça - exceto, talvez, ao Iago instituído; mas não é ameaça ao potencial caótico e criativo do Outro Lado. Pelo contrário: eu comecei a desvendar uma outra possibilidade, de encontrá-lo no pequeno, nos pequenos saltos... É, toda essa reflexão de pequenos saltos sob certo sentido já se faz em um fenômeno de transição, o Iago 2.0 nunca conseguiu vê-los ou aceitá-los (o que dá na mesma, nesse nível em que estamos). Aceitar que a vida é pequena. Que a vida está no presente. Que a lentidão, a absoluta lentidão, é capaz de instituir um Outro Lado também, desde que você consiga parar o suficiente pra ver entre os frames. O Outro Lado jorra também pelas pequenas rachaduras que compoem o aqui-agora. Antes eu entendia a Lentidão como VAZIO, e embora ainda aconteça de vez em quando - um platô desértico - eu encontrei muitos platôs povoados com suas próprias multidões. Muitas delas vieram da própria Kátia: betinenses, nordestinos, mulheres, todas esses povos que a compoem. Eu Iago indivíduo cidadão desterritorializado da internet, acostumado à terra da aceleração infinita, vim a encontrar nesses povos uma nova vida que brotava na era pós-Danilo. É aí, eu acho, que entra a fixação com os hippies: a descoberta do maravilhoso nos pequenos detalhes do cotidiano. Me lembro de uma viagem de ayahuasca onde eu passei algumas horas só pensando nisso, em uma hippie regando uma horta, fazendo comida, olhando nuvens, entregue a esses momentos, entregue a cada sensação e variação desse eterno presente. Capacidade de experienciar a lentidão como plenitude.

É o Iago 2.0 quem escreve este texto. Primeiro, porque este é o blog dele, é aqui que ele ainda se mantém vivo. É aqui que ele tem chance de fechar as gestalts que continuam abertas, gestalts que lhe dão vida e propósito. O Iago 2.0 sempre quis morrer, se destruir. Enquanto ele era eu e eu só era ele, isso era muito perigoso. Porque eu podia acabar me ferrando mesmo, tipo cheirando pó. Destruindo meu corpo e não só esse software específico. Mas ele agora tem só esses espacinhos onde ainda tem chance de se destruir, esse blog, e mais um ou outro. Pra que isso aconteça, ele precisa basicamente resolver a questão com o Danilo. SEJA LÁ QUAL FOR A QUESTÃO, porque parou de fazer sentido há alguns anos. Acho que a questão é só a coisa toda voltar a fazer sentido, no limite. Nesse dia, quando isso rolar, esse blog vai perder talvez seu leitor potencial (um leitor improvável/raro, aliás) mais importante, aquele que faz passar a vida que anima o presente redator. Sob a perspectiva do Iago 2.0, o próprio está obsoleto. Falo "sob a perspectiva" dele, porque é ele quem vê as coisas como evolução linear. Antes não tinha isso, e os outros que vivem agora também não dão a mínima pra essa rota vertical de subir pro paraíso. Sim, porque os outros estão por aí: em cada contexto, em cada situação, nasce um novo pequeno Iago; alguns pegam e se proliferam, outros murcham e morrem.

Mas esses outros não concernem a esse blog. Eles não cabem aqui. Este é um espaço duplo: arquivo e profecia. Os posts só podem terminar com profecias. Essa é a regra secreta que estabeleci sem perceber há muito tempo. No que me fica a questão de como terminar esse post. Como amarrar essa história toda, esse arquivo todo, a um Outro Lado? Como conduzir a narrativa pelo Caminho Tortuoso, constituindo uma Grande Festa da Vida? (É: o mesmo disco repetido até cansar). Acho que tem uma resposta aí em cima. Mas ainda faltam muitas peças no quebra-cabeça. O Iago 2.0 ainda vai se divertir muito; enquanto isso, o blog sobrevive.

Mr. Six às 23:47

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O pesquisador da verdade ouve a pedra e o filósofo, como se ambos falassem por uma só boca.

Eu estou de volta aos negócios. Vendo, troco e empresto idéias bizarras. Interesso-me por qualquer coisa de exótico, misterioso ou selvagem. Se for enviar animais, assegure-se de que hajam buracos nas caixinhas. Até mais e obrigado pela consideração.

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